Pesquisadores do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP desenvolveram um novo método que poderá tornar a fabricação de eletrodos e sensores até 66% mais barata. Os especialistas propuseram a troca de um reagente importado (fotorresiste) utilizado no processo convencional de construção desses dispositivos, que pode custar até mil dólares por litro, por um adesivo cortado a laser que garante alta eficiência, mas por um custo muito menor. O processo inovador pode contribuir para ampliar a produção de eletrodos utilizados em diversas áreas que demandam análises químicas.

Técnica utiliza adesivo para substituir reagente
que pode custar até mil dólares por litro.
Foto: Victor Takekawa
O método proposto favorece a fabricação de dispositivos em larga escala, além de demandar equipamentos e laboratórios menos sofisticados do que a fotolitografia, técnica tradicional utilizada na produção de microchips de computadores. Laís Brazaca, professora do IQSC e uma das responsáveis pela inovação, explica que, até hoje, a produção de eletrodos normalmente exige grande infraestrutura, que é cara e não se encontra em qualquer lugar do país. De acordo com a pesquisadora, o laboratório especializado apto para fabricar equipamentos do tipo mais próximo de São Carlos está hoje a cerca de 150 km de distância, em Campinas.
“O uso da estrutura exige agendamento e as pesquisas podem sofrer por conta da alta demanda. Já no nosso trabalho, eu usei tecnologias que existem na própria USP, que são de mais fácil acesso, e conseguimos produzir os eletrodos aqui na cidade”, comemora. Mesmo com as alterações na fabricação, os sensores se mantiveram eficazes e os resultados de análises permaneceram confiáveis. “A princípio, qualquer sensor de dimensões milimétricas pode ser feito com essa nova metodologia. Um número maior de laboratórios em todo o Brasil poderá usar esses procedimentos sofisticados, mas com baixo custo”, descreve a cientista.
O que muda na prática? No processo tradicional, o fotorresiste é aplicado na base do que virá a ser o eletrodo, geralmente, um vidro. Em seguida, um molde com o desenho específico desejado para o sensor é colocado em cima dessa base e ambos são expostos à luz ultravioleta (UV), que grava na peça as características de interesse. O dispositivo passa, então, por uma máquina que deposita metal em vapor na região demarcada pelo molde. Por fim, o processo de revelação é realizado, mantendo o metal somente nas áreas em que a luz UV incidiu, finalizando o sensor. Já com a nova técnica desenvolvida na USP, adesivos são cortados a laser e colados sobre o vidro, substituindo o reagente empregado no método convencional. O restante do processo se repete até que, no final, basta descolar o adesivo da base que o sensor já está pronto. “Ainda precisamos passar o eletrodo pelo vaporizador de metal, mas essa etapa é mais acessível”, explica Laís.
A inovação desenvolvida na USP foi pensada inicialmente para a produção de sensores de condutividade, que medem, por exemplo, o teor de sais em amostras com base nas variações da corrente elétrica que passa pelo dispositivo. “Quanto mais sais uma amostra possui, maior é a corrente elétrica que percorre os eletrodos”, explica o professor do IQSC Emanuel Carrilho, um dos autores do estudo. A partir da interpretação desses dados, os pesquisadores conseguem descobrir, por exemplo, se há contaminantes em uma estação de tratamento de esgoto ou mesmo a quantidade de nutrientes em uma plantação hidropônica – quando há cultivação fora do solo.
A nova metodologia também pode revolucionar outros setores, como o da saúde, otimizando diagnósticos. Um exemplo seria a detecção da chamada Síndrome do Olho Seco, doença causada por problemas nas glândulas que produzem a lágrima, prejudicando a lubrificação dos olhos. A enfermidade, que atinge cerca de 18 milhões de brasileiros, provoca consequências desagradáveis, como vermelhidão, coceira e incômodo por causa da claridade. “A partir da análise da condutividade, o sensor pode diferenciar a lágrima de uma pessoa portadora da síndrome de uma lágrima saudável”, ressalta o professor Emanuel. Para validar o método, Laís Brazaca – que já tem no currículo outras pesquisas na área de sensores voltados para o diagnóstico – produziu no laboratório lágrimas sintéticas saudáveis e outras consideradas desreguladas para que elas fossem avaliadas por um protótipo de sensor desenvolvido com sua técnica: “Quem tem a Síndrome do Olho Seco, tem a lágrima mais concentrada, com mais sal. Assim, a corrente aumenta”, descreve.

Esquema ilustra passo a passo para a fabricação de sensores com a técnica criada na USP. Foto: Victor Takekawa
O estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e pela National Science Foundation (NSF) dos Estados Unidos. Para o futuro, o grupo pretende trabalhar com biossensores desenvolvidos com a nova técnica, explorando a variação de condutividade para detectar moléculas específicas que poderão auxiliar no diagnóstico de doenças.