Publicado em 11 de novembro de 2019
Maris Otter é o principal malte da cena cervejeira britânica. Ele é a alma de muitas cervejas premiadas produzidas em todo o mundo. Maris Otter é a “escolha do povo” dos maltes, mesmo quando comparado com variedades modernas. Não que haja algo de errado com as variedades modernas, mas o fato do malte Maris Otter ainda ser tão querido pelo cervejeiro mostra sua qualidade.
Esta variedade foi desenvolvida em 1965, quando o Plant Breeding Institute (PBI) do Reino Unido em Maris Lane, perto de Cambridge, cruzou as variedades da Pioneer e da Proctor. Maris Otter foi a primeira variedade de cevada de inverno desenvolvida para oferecer boa qualidade de malteação e dominou a cena de cevada do Reino Unido ao longo dos anos 70. Foi preferida e amada pelos cervejeiros por sua consistência cervejeira e complexidade de sabor.
Mas as coisas nem sempre foram fáceis para o Maris Otter. Depois de liderar a cena cervejeira britânica por cerca de quinze anos, começamos a ver os primeiros sinais de declínio. O normal para variedades bem sucedidas de cevada é cerca de cinco anos, então quinze anos foi uma conquista impressionante.
No final dos anos 70 e nos anos 80, Maris Otter foi rotulada pelos pesquisadores como uma variedade em decadência. Os pesquisadores acreditavam que a casca era fraca e tinha uma baixa resistência a doenças em comparação com variedades modernas. Foi até mesmo usado como referência pelos pesquisadores como o menor nível de aceitação de certas características quando comparado com as novas variedades que estavam para serem lançadas.
Como resultado, era possível para os produtores ter maior lucro, devido a maior produtividade na mesma área, cultivando outras variedades, o que não ajudou a Maris Otter, e você não pode culpá-los por isso! No entanto, Maris Otter ainda era cultivada por alguns produtores, porque era a única variedade de cevada cervejeira de inverno disponível naquela época e cultivá-la era mais rentável do que cevada forrageira.
O crescimento da produção de cerveja em escala industrial também não beneficiou a variedade Maris Otter. Isto tornou ainda mais importante o uso de insumos mais baratos e as variedades mais modernas ofereciam um maior rendimento no campo e consequentemente maltes com preços melhores para os cervejeiros. Depois de algum tempo perdeu a proteção de propriedade intelectual, o que significou que os produtores de sementes tiveram ainda menos incentivos para produzi-la. As novas variedades eram muito mais rentáveis para os pesquisadores e produtores de cevada.
No final dos anos 80, Maris Otter foi retirada da lista de re-comendação do National Institute of Agricultural Botany.
Embora os institutos de pesquisa estivessem criando novas variedades consideradas agronomicamente superiores do que à Maris Otter, a demanda dela pelos cervejeiros continuava.
As demandas dos cervejeiros por Maris Otter continuaram e no início dos anos 90 foram compradas por dois comerciantes, H Banham Ltd e Robbin Appel Ltd. No entanto, estes comerciantes agora tinham a difícil tarefa de convencer os produtores a substituir as fantásticas novas variedades e produzir Maris Otter – uma variedade antiga que era usada como limite mínimo de aceitabilidade no desenvolvimento das novas variedades. Durante este período, começamos a ver um crescimento do mercado de cerveja artesanal e Maris Otter recebeu toda a atenção destes cervejeiros.
Maris Otter foi descrito como o malte desenvolvido principalmente por suas características cervejeiras de consistência e sabor. O que era contrário às novas variedades, desenvolvidas com foco no melhoramento das características agronômicas. Cervejeiros artesanais se agarraram a isso e ambos, a variedade e o mercado craft cresceram desde então.
Maris Otter foi ressuscitada por H Banham Ltd e Robbin Appel Ltd com o suporte total da Crisp. Crisp geraria o interesse dos cervejeiros, mas os comerciantes ainda precisaram convencer os produtores a cultivar a Maris Otter, que também precisava se tornar uma cultura agronomicamente aceitável. Para isso, eles tiveram que voltar para o básico, plantando e guardando as melhores sementes ano após ano até alcançar este melhoramento.
No “campo mãe” é onde esta seleção ocorre. Até hoje, este campo é muito importante para a sobrevivência e pureza do grão. São quatro acres (um acre é equivalente a 0,4 hectare) localizado em Norfolk, não muito longe da maltaria principal da Crisp, e todas as espigas de cevada são inspecionadas manualmente. Qualquer coisa que não seja um exemplar perfeito de Maris Otter é descartado, então as plantas que permanecem são as mais bonitas e puras. Elas são colhidas separadamente e utilizadas para ressemear o “campo mãe”. Atualmente, 90% do Maris Otter é cultivado em Norfolk, próximo do campo mãe e da maltaria da Crisp e enviado como malte para o mundo todo. Continua ganhando prêmios e permanece como cerne do crescimento da cerveja artesanal.