Batalha no campo

PlantacaoInovações e novas tecnologias de combate às pragas que ainda ameaçam a cultura videira

* Marcos Botton
* Cristiano João Arioli

Um dos aspectos peculiares relacionados à cultura da videira diz respeito à incidência de insetos e ácaros fitófagos. Se for feita a pergunta a um grupo de técnicos ou produtores envolvidos com a viticultura a qual dos fatores limitantes à produção deve ser dada maior atenção, a resposta certamente será o manejo das doenças (míldio, oídio, antracnose, podridões do cacho etc.). Entretanto, se a pergunta for referente à ocorrência de insetos/ácaros, a resposta será que estes são de importância secundária, o que é comprovado pelo reduzido número de pulverizações com inseticidas/acaricidas realizadas anualmente na cultura. Este cenário tem sido a realidade nas diferentes regiões; porém, ao se observar mais atentamente o manejo adotado pelos viticultores, verifica-se que situações de extrema importância para a produção e elaboração de produtos de qualidade estão relacionadas à ocorrência de insetos pragas.

Devido à ampliação do cultivo da videira para regiões com condições ecológicas favoráveis ao desenvolvimento das pragas e/ou de difícil manejotronco (como solos extremamente argilosos, regiões de elevada precipitação etc.), algumas pragas destacam-se como de importância primária,
podendo, inclusive, causar a morte dos parreirais. Nesta situação, encontramos: 1) A cochonilha de raiz pérola-da-terra Eurhizococcus brasiliensis (Hemiptera: Margarodidae) e a forma radicular do pulgão filoxera Daktulosphaira vitifoliae (Hemiptera: Phylloxeridae); 2) Aumento na incidência de vírus nos vinhedos disseminados por cochonilhas (Pseudococcidae) que atuam como vetoras destes patógenos; 3) Aumento na incidência de ácaros, como resultado do efeito secundário da aplicação de inseticidas de amplo espectro, principalmente do grupo dos piretróides; 4) Elevada mortalidade de plantas, tecnicamente chamada de ‘declínio da videira’, em que, por problemas radiculares, as plantas acabam morrendo – em hipótese, devido à associação entre insetos sugadores de raízes e patógenos de solo.

Colônia de cochonilhas no tronco da videira

Nos últimos anos, devido à exigência pelo aumento da qualidade do produto, tanto para mesa como para processamento, a fim de uma melhor participação num mercado global cada vez mais competitivo, os viticultores têm se preocupado mais com relação à sanidade das uvas no uvas estragadasmomento da colheita. Neste caso, insetos que danificam as bagas, como a traça marrom dos cachos Cryptoblabes gnidiella (Lepidoptera: Pyralidae), a mosca-das-frutas Anastrepha fraterculus (Diptera: Tephritidae), o gorgulho-do-milho Sitophilus zeamais (Coleoptera: Curculionidae) e as vespas (Hymenoptera), passam a assumir o status de pragas primárias, por provocarem lesões nos frutos que servem de porta de entrada para podridões. Além disso, as lesões causadas nos cachos atraem insetos benéficos, como a abelha Apis mellifera mellifera (Hymenoptera: Apidae), ampliando ainda mais as perdas dos viticultores. É importante lembrar que devido ao reduzido número de inseticidas autorizados para uso na cultura da videira, qualquer aplicação realizada com produtos não-registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) pode resultar em inconformidades, pela presença de resíduos tóxicos não-permitidos.

Traça marrom dos cachos da videira

O manejo integrado de pragas tem como principal estratégia Casinha na plantaçãoreduzir a população das espécies prejudiciais ao cultivo, de modo a permitir que os inimigos naturais atuem, evitando, de maneira natural, o crescimento populacional das espécies fitófagas. Por esta razão, toda a aplicação de inseticidas deve ser tomada com base no monitoramento das principais pragas associadas ao cultivo.

Nos últimos anos, diversas tecnologias foram desenvolvidas, permitindo aos viticultores melhorar o manejo de pragas no vinhedo, reduzindo os riscos de perdas na produção. Entre elas, destacam-se:
– Aumento da biodiversidade vegetal no interior dos vinhedos, devido à manutenção de plantas de cobertura do solo nas entrelinhas. Esta prática, além de evitar a erosão, tem ampliado a presença de inimigos naturais no cultivo;

Armadilha para o monitoramento da traça marrom dos cachos

Pote pendurado– Uso do plantio sistematizado em camalhões com drenagem do excesso de água nos parreirais, o que tem permitido um melhor desenvolvimento radicular e consequente maior resistência das plantas aos agentes que causam o declínio e a morte das plantas;
– Uso de porta-enxertos tolerantes à pérola-da-terra e resistentes à forma galícola da filoxera;
– Aumento do emprego do tratamento de inverno com calda sulfocálcica, para suprimir a população de cochonilhas;
– Controle físico de insetos que atacam o cacho, através do emprego do raleio de bagas em uvas de mesa;

 

Armadilha para o monitoramento da mosca das frutas em videira

– Disponibilidade de ferramentas para o monitoramento da traça marrom dos cachos – através do emprego de armadilhas com Figura 5feromônios sexuais–, da mosca-das-frutas e do gorgulho do milho, com o uso de atrativos alimentares;
– Emprego de inseticidas específicos, como o indoxicarbe, e biológicos, como o Bacillus thuringiensis, para o controle de lagartas;
– Uso de inseticidas de forma localizada nos vinhedos, com destaque para os neonicotinóides, aplicados via solo para o controle de pérola-da-terra, e de iscas tóxicas, para reduzir a infestação das moscas-das-frutas;
– Uso de inseticidas de origem microbiana, para o manejo de tripes, como o espinosade;
– Uso de plantas atrativas e repelentes na época de maturação da uva, como forma de diminuir os danos ocasionados por vespas e abelhas;

Danos de tripes em uva de mesa

– Ácaros predadores que podem ser utilizados como agentes de controle biológico, principalmente em uva de mesa cultivada sob plástico.
Uva com moscaA disponibilidade dessas ferramentas tem melhorado de forma significativa o manejo das principais pragas no cultivo da videira, racionalizando o controle químico, permitindo evitar ao máximo o uso de inseticidas. No entanto, o desafio de produzir uvas de qualidade é crescente, devido à permanente ameaça de introdução de novas pragas no país, como é o caso da traça-da-uva dos cachos Lobesia botrana (Lepidoptera: Tortricidae) e/ou a introdução da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da doença de Pierce, que tem como principal vetor as cigarrinhas. Por esta razão, é fundamental que os técnicos e produtores estejam sempre atentos às novas tecnologias, bem como às ameaças que existem relacionadas à presença de insetos, garantindo a sustentabilidade do cultivo.

Ataque de vespa em bagas de uva

 

* Marcos Botton – Pesquisador Entomologia Embrapa Uva e Vinho
* Cristiano João Arioli – Pesquisador Entomologia Epagri Videira

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