Vinho: vale quanto custa?

Vinho envelhecidaDepois de um processo trabalhoso nas vinícolas, o vinho finalmente chega às mãos do consumidor com preços que poderiam ser inferiores não fossem os impostos abusivos cobrados pelos governos

Por Guilherme Grando

Chegando a uma loja de vinhos, logo se vê a embalagem, a origem do produto, e vem a pergunta ao sommelier “quanto custa?” imediatamente, vem a reflexão: como vinho é caro.

Esta é uma frase muito comum de se ouvir, mas afinal, o que está embutido neste número que, independente da marca, dizem ser caro demais? Afinal, existe vinho barato? Pode-se fazer vinhos baratos e bons? Vamos lá, da garrafa para trás. É uma longa história de um trabalho bem maior do que o imaginado.

A descoberta de um grande terroir para produção de vinhos traz grande euforia. É a conquista de um sonho conseguir produzir ícones, grandes vinhos de alta qualidade. Junto a isso vem o pensamento, “o que devo produzir?”

Vinho branco, será que vende? Espumante (afinal acabou o preconceito, todos bebem)? Tintos, com barrica, sem barrica? Brandy? Quantos anos de guarda?

Definida a vontade mas não definido o real potencial produtivo da região já é hora de se escolher as variedades. Há que se escolher alguns viveiros pelo mundo, alguns muito sérios, outros nem tanto, fecha-se pedido, aguarda-se ansiosamente a chegada das mudas. Mas não basta esperar, há que se preparar o solo, pesquisar qual tipo de solo temos e que correções serão necessárias. Aplicam-se as correções e pronto, o solo está apto ao plantio. Chegam as mudas, planta-se, cuida-se para que não tenham ataques de insetos e outros animais. Começam a crescer e chega a hora de construir as espaldeiras, aquela espécie de cerca por onde as parreiras se seguram e desenvolvem, formando um belo vinhedo.

Os primeiros cachos começam a surgir e com muito pesar estes cachos são abortados para poder fortalecer a planta e deixá-la crescer mais forte. Sim, lá se vai um ano, mas é no segundo que os testes começam a ser feitos e iniciam as microvinificações e as pesquisas podendo, agora sim, saber o que melhor se adaptou e que tipo de uva será usada para cada produto. Define-se o que quer e daquele grande vinhedo separa-se para cada produto um tipo de cuidado.Cacho de uva

Espera-se longos cinco anos para que os vinhedos possam gerar frutos com qualidade e para um grande vinho – não sem gastos e trabalhos: há que tratar, proteger, podar, cuidar, selecionar dentre centenas de formas a melhor para cada uma destas fases, afinal os frutos das videiras são como filhos e juntos formando cada quilograma de uva transformar-se-ão em novos filhos, as garrafas de vinho.

Até chegar a esse ponto há um novo longo caminho e, voltando ao final destes cinco anos, (1825 dias), um dia rezando por chuva, outro por seca, vai chegando ao ponto da primeira safra com qualidade. Vários cachos nascem, muitos abortamos, cachos encostados, mal localizados, enfim, iniciam-se os maiores custos. Abortam-se muitos frutos, afinal, com menos frutos por plantas mais qualidade para cada um.

Feita uma pré-seleção de cachos eles são colhidos, e não a qualquer hora. Analisa-se brix (para ver a quantidade de açúcar natural), acidez, saúde e temperatura. Ao fim colhe-se manualmente e tudo é cuidadosamente colocado em caixas que permitem vazar cada gota de grãos esmagados para que não se fermente nada antes do tempo. Leva-se até a vinícola, seleciona-se grão a grão, coloca-se nos tanques de inox para fermentar e controla-se passo a passo no laboratório. Após escolhido o que vai ser estagiado em barricas coloca-se por até um ano ou mais e pasmem, uma barrica que custa 320 euros na Europa chega no Brasil por volta dos 1.000 euros. Enfim, o vinho está pronto. Engarrafa, com boa rolha de cortiça, rotula, coloca em caixas e está pronto após um ano da colheita para espumantes charmat e até quatro anos depois para vinhos tintos de guarda. 1460 dias se passaram até a chegada na prateleira. Além do custo de produção, do alto custo logístico nacional, do custo Brasil, das margens de distribuição e comercialização dos pontos finais, e acreditem, dos recentemente apontados em pesquisas, mais de 60% de impostos para alguns estados após a introdução da substituição tributária, o vinho está na mão do consumidor.

Vinho abreQuando o consumidor pega a garrafa e diz “vinho é caro”, perguntamos será? Este breve relato, por mais sucinto que seja comparado a realidade de produção, nos mostra que vinho não é algo que se põe a matéria prima em maquinas e sai pronto. Ele é fruto de trabalho de campo, indústria e comercial. Para chegar a uma loja, um grande trabalho de mostras e degustações é feito para que dentre milhares de produtos um venha a ser escolhido para estar ali, e mostrando este trabalho em busca da qualidade.

Vinho não é caro, vinho tem custo. Tem imposto injusto. Mas e quanto aos vinhos de milhares de reais? Costumo comparar com grandes marcas de carros. Estes sonhos, ícones e têm seu preço formado pelo mercado.

A história que brevemente conto é a realidade de toda vinícola, assim como a Villaggio Grando Boutique Winery de Santa Catarina que dentro do conceito boutique produz o melhor que se pode extrair de um grande terroir.

Vinho traz envasado além do líquido, cultura, história e sonhos, e isso tem valor ao amante dos vinhos. Vinho não é caro, vinho tem valor.

Por Guilherme Grando, proprietário da Vinícola Villagio Grando

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