Tecnologia e tradição caminhando juntas

Aliar os benefícios da tecnologia e a tradição secular de empresas e propriedades familiares, é um desafio para centenas de vinícolas espalhadas pelo Brasil

 

Carlos Donizete Parra

 

O mercado brasileiro de vinhos ficou durante vários anos estagnado um consumo per capta abaixo de 2 litros e, pela primeira vez, conseguimos ultrapassar essa marca, chegando em 2019 a 2,13 litros por pessoa, um total de 380,4 milhões de litros de vinho, entre os quais 69% são de rótulos nacionais, aqui incluídos os vinhos finos e também aqueles chamados “de mesa”, e 31% são de importados.

O consumo global de vinho nos últimos 20 anos mostra um quadro de altos e baixos: na Alemanha, o número de litros consumidos permaneceu em torno de 20 milhões de hectolitros, enquanto isso na França e na Itália, dois tradicionais consumidores do produto, o consumo de vinho caiu mais de um terço nesse período.

Mudando de continente, verificamos que o consumo de vinho nos EUA aumentou mais de um terço, atingiu o pico em 2018, com um volume de 33 milhões de hectolitros.

Ultrapassar os 2 litros per capita não é nada de extraordinário se considerarmos o consumo de países europeus. Portugal é o país com o maior consumo no mundo (62 litros), seguido da França com 50 litros e da Itália com 44 litros por pessoa/ano. E até nossos vizinhos argentinos e chilenos têm um consumo muito maior que o registrado por aqui. De qualquer forma, é importante ultrapassar essa barreira e alçar novos vôos.

Por ano, são envasados 64,5 milhões de litros
de produtos vinícolas, divididos em 220 itens que compõe o portfólio das 13 marcas da vinícola

Antes totalmente concentrada no Rio Grande do Sul, a produção brasileira de vinhos se espalhou nos últimos anos por várias regiões: Serra Gaúcha, Vale do São Francisco, Campanha Gaúcha, Campos de Cima da Serra, Planalto Catarinense, Planalto de Palmas, Sul de Minas Gerais e Chapada Diamantina.

Existem no país cerca de mil e duzentas vinícolas, 61% das quais estão localizadas no estado do Rio Grande do Sul. Outras 30% localizam-se em Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais, Pernambuco e Bahia. As restantes estão espalhadas por pelo menos outros seis estados. A distribuição das áreas de plantio têm impactado na diversidade de castas e vinhos produzidos pelas vinícolas, respondendo às demandas dos consumidores em busca de novidades (2).

90% é quanto o setor vitivinícola do Rio Grande do Sul representa da produção nacional

O Rio Grande do Sul é responsável por cerca de 90% da produção nacional de vinhos produzidos por aproximadamente 750 vinícolas e 15 mil produtores da fruta. O setor vitivinícola fatura, em média, R$ 3 bilhões, segundo a Seapdr (Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural) do estado.

Tecnologia

As vinícolas gaúchas vêm ao longo dos anos buscando tecnologias e ferramentas para automatizar suas operações com o objetivo de melhorar a produtividade e atingir resultados operacionais mais interessantes. As soluções existem e estão disponíveis para todas as necessidades e “tamanhos de bolso”.

A tecnologia tem revolucionado os processos corporativos e seus impactos permeiam indústrias de todos os níveis. O aumento da competitividade, neste ambiente de constante inovação, demanda uma atuação cada vez mais estratégica e focada na melhoria dos processos de trabalho e resultados das empresas.

O uso das novas tecnologias permite o aumento da produtividade e da qualidade dos produtos oferecidos adequando o portfólio das indústrias de acordo com as necessidades dos clientes. Ferramentas como IoT, drones, Big Data, Inteligência Articial, robótica e machine learning estão disponíveis para ajudar as empresas a caminharem nessa jornada de transformação digital.

A Cooperativa Aurora , um dos maiores produtores de vinhos e derivados da uva, instalada há quase 100 anos na Serra Gaúcha, iniciou há alguns anos sua jornada rumo à Indústria 4.0. Na área de produção, robôs instalados na recepção de matéria-prima são capazes de erguer até 500 quilos de uva de uma única vez facilitando o descarregamento da fruta para o processamento. Essas máquinas retiram trabalhadores de operações repetitivas e pesadas para deslocá-los para atividades onde são necessárias habilidades criativas e de tomadas de decisão.

Para os próximos cinco anos, a Vinícola Aurora colocou como meta duplicar o faturamento e, para isso, uma das principais ações foi a implantação de uma nova unidade industrial, inaugurada em maio de 2019 no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. A nova planta industrial é a primeira fábrica do Brasil com certificado LEED versão 4.0, ou seja, é 100% sustentável. A unidade possui uma área total superior a 24 mil metros quadrados, com estrutura para abrigar o crescimento contínuo da vinícola por décadas.

O diretor superintendente da cooperativa, Hermínio Ficagna, lembra que as conquistas obtidas nesses 89 anos só foram possíveis graças à dedicação de vitivinicultores, à constante modernização do parque industrial, à alta tecnologia das unidades e aos rigorosos padrões exigidos nos processos de produção.

Venda de vinhos e espumantes rosé
crescem, principalmente no verão
Crédito: Eduardo Benini

“O cuidado extremo com a rotina produtiva, observado a partir da plantação das mudas ao engarrafamento do produto, faz parte da receita de crescimento constante da Aurora durante todos esses anos”, analisa o superintendente.

A Aurora conta, atualmente, com 1,1 mil famílias associadas, em 11 municípios, e o engajamento de 500 funcionários divididos em três unidades em Bento Gonçalves e outra em Pinto Bandeira.

Em 10 anos, o faturamento da empresa quase triplicou, atingindo R$ 558 milhões em 2019, o melhor desempenho de toda sua história. O resultado a consolida como a vinícola que mais fatura no país e também como líder de mercado nas categorias de vinhos finos, sucos de uva e coolers. O suco representa cerca de 60% da receita total da empresa.

R$ 434 é o consumo diário de um visitante na serra gaúcha

As exportações também vêm se destacando. Em 2019, 756 mil garrafas foram comercializadas para mais de 20 países, sendo Paraguai, China e Estados Unidos os principais compradores.

Enoturismo

Além das exportações, o enoturismo é apontado por vinícolas e especialistas como atividade essencial para o desenvolvimento na região. Somente no período da vindima que vai de janeiro a março, em Bento Gonçalves, pelo menos 330 mil turistas visitam as vinícolas e região, com um consumo diário de R$ 434 por pessoa. O movimento previsto para o município é de cerca de R$ 286 milhões.

Vinícolas como a Aurora, que recebeu 200 mil pessoas no ano passado, abrem suas portas para visitas guiadas gratuitas.

Grande aliada da produção, a tecnologia também permite que um visitante que colheu uva na vindima receba atualizações sobre o processamento da sua fruta.

750 é o número de vinícolas no Rio Grande do Sul

“Enviamos as informações por WhatsApp e email. Avisamos quando o vinho vai para a barrica, quando é engarrafado, e combinamos a entrega, feita normalmente um ano e meio depois”, afirma André Larentis, enólogo da vinícola que leva seu sobrenome.

A Larentis faz parte de uma propriedade que pertence à família há cinco gerações. Um dos destaques da vinícola é a colheita noturna. Turistas se encantam com a paisagem à luz da lua, o aroma que exala das uvas e a experiência diferente que essa atividade proporciona.

Também de olho no enoturismo, a Vinícola Campestre está apostando suas fichas em uma nova propriedade localizada em Vacaria, Campos de Cima da Serra, região localizada há quase 1000 metros de altitude, com dias quentes e noites bem amenas, ideal para o cultivo de uvas viníferas e produção de vinhos finos.

O consumo de alimentos e bebidas saudáveis
no Brasil movimenta cerca de
R$ 35 bilhões por ano

Tradicional fabricante de vinhos de mesa, a Campestre busca nessa nova unidade atingir esse público consumidor de vinhos finos. Além de focar seus investimentos também no enoturismo, disponibilizando para isso uma grande área onde será construído hotel, restaurantes, lojas e outros atrativos que formarão o complexo turístico da Campestre, uma nova opção aos visitantes interessados pelos encantos da região sul do país.

A unidade da Campestre, em Vacaria, inicia suas operações ainda este ano com produção estimada de 350 mil garrafas por ano em uma área de 84 hectares, sendo 25 hectares já plantados com as variedades Sauvignon Blanc, Pinot Noir , Merlot, Sangiovese, Malbec, Syrah e Tannat.

Safra menor mas de ótima qualidade

Especialistas e vinicultores mostram-se muito otimistas com a qualidade da safra de uva de 2020, o que deve resultar em vinhos de excelente qualidade comparado com as safras de 2005 e 2012, consideradas as melhores dos últimos anos. Quanto ao volume colhido, a estiagem deve provocar uma quebra de 20% a 30% em relação à safra anterior.

Vinhos orgânicos

A comercialização de vinhos produzidos a partir de uvas orgânicas cresceu cerca de 20% nos últimos cinco anos e já representam 2,8% do mercado mundial, segundo levantamento da empresa de pesquisas britânica Wine Intelligence. No Brasil esse avanço foi de 60% nos últimos dois anos, conforme dados do Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho).

O mercado de produtos orgânicos, veganos e biodinâmicos segue em alta no Brasil. Esse é um movimento mundial que ganha cada vez mais adeptos por aqui. Segundo pesquisa da Euromonitor, o Brasil ocupa a quarta posição em consumo de alimentos saudáveis no ranking global e movimenta algo em torno de 35 bilhões de reais por ano. O estudo revela, ainda, que nos últimos cinco anos o crescimento do setor de alimentos e bebidas saudáveis foi, em média, de 12,3% ao ano.

A diversidade de regiões produtoras
de uvas contribui para fabricação de uma
variedade de vinhos e espumantes

O Rio Grande do Sul registrou na safra passada (2019) uma produção de 671,3 mil litros de produtos derivados de uvas orgânicas, sendo 42,9 mil litros de vinhos e 628,4 mil litros de suco de uva desta categoria. Esse foi o primeiro ano em que esse dado foi computado. Isso só foi possível após mudança no Sisdevin (Sistema de Cadastro Vinícola) da Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul. Apesar do avanço significativo dos últimos anos, os 42,9 mil litros de vinho representam 0,03% dos 300 milhões de litros da produção de 2019.

“É o nicho, do nicho do nicho. Porém, quando se fala do microambiente de vinho, do restaurante de comida sustentável, do movimento orgânico, e dos grandes centros de consumo, é sim um movimento em voga”, afirma Rodrigo Lanari, proprietário da Winext, que representa a consultoria Wine Intelligence no Brasil.

O executivo explica que o próprio consumo geral de vinho no país ainda é baixo. “O Brasil é um mercado emergente e o consumo per capita é baixo, ao redor de 2 litros/ano por habitante. É verdade que se popularizou muito nos últimos dez anos com o ingresso de 9,8 milhões de novos consumidores regulares da bebida no período de 2010 a 2018; mas o consumo de vinho orgânico ainda está restrito a uma elite. O consumidor regular de vinho, que perfaz cerca de 32 milhões de pessoas, este consumidor ainda não tem entendimento do orgânico”, diz Lanari.

A Aurora faturou R$ 558 milhões no ano passado e representa cerca de 15% da safra de uva no estado para este ano

Ele explica que outro diferencial está nos rótulos ecologicamente sustentáveis, que não necessariamente precisam ser orgânicos, estes, que dependem de certificação. “Para o consumidor o vinho já é um produto natural, já que é feito de uva. E isso precisa ser melhor explorado com os orgânicos. Nossas pesquisas indicam que o termo “sustentável” muitas vezes é melhor compreendido pelo consumidor”, afirmou.

De acordo com o Global SOLA 2019 – relatório da consultoria britânica sobre os estilos de vinho sustentáveis, orgânicos, alternativos e de baixo teor alcóolico – o público tem demonstrado mais conhecimento sobre o vinho vegano nos países desenvolvidos, embora em nível menor se comparado aos estilos orgânico e sustentável.

Quem já produz

Espumantes produzidos com uva moscatel é um dos que apresenta maior crescimento no mercado brasileiro

Quem já conseguiu se fazer entender nesse mercado do “nicho, do nicho do nicho” dos vinhos orgânicos foi a Cooperativa Garibaldi, do Rio Grande do Sul. Formada predominantemente por cerca de 410 famílias produtoras de uvas, o foco principal é o da sustentabilidade. Desde 2001 a cooperativa tem um projeto para estímulo à produção orgânica entre os seus cooperados.

“O mercado brasileiro é tímido, porém vem crescendo de forma consistente e na casa de dois dígitos por ano. Primeiro estamos pensando na qualidade de vida do nosso produtor, e não distante disso temos um consumidor que quer hábitos de consumo mais saudáveis. A produção orgânica e biodinâmica vem de encontro com essas crenças”, afirma Alexandre Angonezi, diretor executivo da Cooperativa Garibaldi.

Segundo ele, dos cerca de 24 milhões de quilos de uvas produzidos pela cooperativa, 5% é de produção orgânica. Parte dessa produção deu origem ao primeiro lote de espumantes e sucos biodinâmicos certificados no país, o “Astral”. A agricultura biodinâmica é uma forma diferenciada de toda cadeia do cultivo que segue as mesmas normas da orgânica e inclui preceitos que respeitam o equilíbrio entre a natureza, o homem e o universo.

A Vinícola Aurora também investe nessa categoria de produtos, um deles é o suco de uva integral Casa de Bento Orgânicos, 100% integral, natural, sem qualquer adição de corantes, aromatizantes ou conservantes, assim como os demais sucos integrais da marca Casa de Bento.

Menos álcool

O mercado de produtos saudáveis movimenta bilhões de dólares no mundo e as bebidas representam boa parte desse faturamento. O consumo de álcool continua a cair em todos os mercados. Nesse movimento ganham market share as bebidas sem álcool ou com baixo teor alcoólico. Essa tendência também encontra espaço no Brasil – o que pôde ser notado em 2019 com a onda dos coquetéis sem álcool em bares, restaurantes e festas. No entanto, de acordo com a Wine Intelligence, essa tendência de moderação ao álcool não resultou numa barreira ao crescimento do vinho no mercado nacional: o número de consumidores regulares da categoria seguiu crescendo em 2019, alcançando 32 milhões de pessoas. O que os números sugerem é que o brasileiro está procurando por bebidas de mais qualidade e menor teor alcoólico, e que isso pode representar uma grande oportunidade para a categoria do vinho.

O brasileiro está demandando bebidas
com menor ou com zero teor de álcool

Diversas bebidas alcoólicas buscam alternativas tecnológicas para a redução ou retirada do álcool de seus produtos. A cerveja já vem fazendo isso há vários anos e terá que acelerar esse processo para acompanhar as demandas do consumidor. O vinho tem mais que o dobro do teor alcoólico da cerveja, além de que a acidez, segundo especialistas, é outro fator que também dificulta o processo de desalcoolização. Produzir vinhos ou espumantes com valores próximos a 0,5 % de álcool é um desafio tecnológico e financeiro. Existem métodos de remoção do álcool como osmose reversa, eletrodiálise, extração através de dióxido de carbono líquido e métodos via membrana, incluindo destilação osmótica. (1)

Embalagem

Conveniência e personalização são demandas dos consumidores para os dias atuais. Nessa esteira, as latas ganham importância no mercado de vinhos. O vinho em lata já é encontrado há muitos anos no mercado europeu. No Reino Unido, esse mercado representa 5 milhões de dólares, enquanto nos Estados Unidos , em 2019, as latas cresceram mais de 70% atingindo vendas em torno de 70 milhões de dólares.

O mercado brasileiro ainda tem poucos lançamentos de vinhos em latas. Para os espumantes, principalmente, parece ser bastante interessante para ações sazonais, além de consumo em baladas, festas e ocasiões bem descontraídas. Uma alternativa para competir com produtos como a cerveja, ices e outras bebidas. Para se ter uma ideia, a lata de alumínio cresceu mais de 13% no mercado brasileiro de bebidas, sendo que já representa mais da metade das vendas de cerveja no país.

Com foco ainda na conveniência, o consumo de vinho em taça nos locais de consumo, principalmente, em bares, restaurantes, festivais e vinhaterias representa um grande potencial de crescimento. No caso das embalagens de vidro, a tendência é a utilização de garrafas cada vez mais leves adequando-se às exigências de consumo sustentável.

Experiência

A experiência do consumidor é outro ponto fundamental para o sucesso no mercado, sendo bem direto, é fundamental para aqueles que pretendem sobreviver no mercado. O consumidor busca novas experiências e está alinhado com questões ligadas a sustentabilidade, propósito e identidade da marca.

Construir um relacionamento com o consumidor faz toda a diferença para sustentação de uma marca no mercado atual. E é importante lembrar que esses grupos de consumidores estão cada vez mais fragmentados, formados pelas gerações x, y, z, 60+, adeptos do veganismo, vegetarianos entre outros.

Ou seja, personalizar é preciso e, para isso, é necessário conhecer, compreender e atender os desejos dos consumidores

Referências
(1) Blog Drinktec, Dr Hermann Pilz.
(2) Revista Engarrafador Moderno, Dr. Celito Crivellaro Guerra – EMBRAPA Uva e Vinho

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