O jogo está aberto

As oportunidades existem tanto no mercado interno quanto externo.
As estratégias e objetivos são diferentes e precisam de
ações específicas para surtirem os efeitos desejados

Carlos Donizete Parra

Fabricantes nacionais e grandes players mundiais de destilados estão há anos em busca de uma resposta para essa questão: como transformar a cachaça em um bom negócio?

Dentro do segmento de destilados um exemplo recente de produto bem sucedido é o gim. As vendas de gim cresceram quatro vezes em valor no Brasil no período de 2012 a 2017, atingindo cerca de 100 milhões de reais. Em volume, o crescimento chegou perto de 150%, segundo dados do Euromonitor International.

Alguns fabricantes de cachaça também aproveitaram a vocação artesanal e partiram para a produção de cervejas especiais. São vários produtores seguindo essa nova onda do mercado cervejeiro. Começam pequeno, com produções em torno de 20 mil litros/mês e aos poucos vão conquistando o mercado local. A expansão para outras regiões é uma questão de tempo. Segundo alguns desses produtores, a cerveja artesanal oferece margens de contribuição bem mais interessantes do que a cachaça. É uma boa estratégia de diversificação de portfólio, possibilita a otimização de custos de mão-de-obra da fábrica às vezes ociosa e, também, pode aproveitar a mesma logística de distribuição e vendas.

Mas, não podemos deixar a cachaça de lado. É preciso criar um negócio novo mas não abandonar o alambique. Por isso é necessário investir na produção de uma linha de cachaças de qualidade, com história, identidade e que seja sustentável como negócio.

A cachaça

Na contra-mão do gim e das cervejas artesanais, a cachaça viu suas vendas caírem 3% no período entre 2014 e 2018, segundo o Euromonitor, atingindo em 2018 um volume de 523 milhões de litros. Se compararmos com 2017, o ano passado teve um pequeno crescimento em torno de 0,5% no volume. É pouco, mas é um alento e pode significar uma retomada para o setor.

A capacidade instalada de produção de cachaça atinge 1,2 bilhão de litros, enquanto a produção efetiva fica em torno de 800 milhões por ano. Apenas 1% do que é produzido é exportado. Em 2018, a cachaça gerou receita de US$ 15,61 milhões (8,4 milhões de litros) em exportações. Atualmente, a bebida é exportada para mais de 60 países.

Reserva 51 é 100% envelhecida em barris de carvalho americano com finalizações diferentes de acordo com o tipo de madeira utilizado

Líder no mercado, a Companhia Müller de Bebidas, dona da marca 51, cresceu 2% no ano passado e isso se deve muito ao mercado externo e do sucesso nas vendas de sua cachaça premium Reserva 51, com preço ao redor de 100 reais. As exportações representam apenas 2,5% do faturamento da empresa, alcançando cerca de 2 milhões de litros por ano. O carro-chefe da Companhia Muller, a cachaça 51, detém cerca de 40% do mercado nacional. O mercado internacional ainda é pouco explorado representando uma boa oportunidade de negócio para os fabricantes.

No mercado interno, fabricantes apostam no aumento de consumo através da utilização da cachaça para o preparo de drinks e coquetéis, uma prática empregada com sucesso pelo gim. A cachaça ainda enfrenta um preconceito dos consumidores brasileiros que a classificam como uma bebida das classes mais populares e sem qualidade. Algumas empresas criaram campanhas educativas com bartenders importantes na linha de frente estimulando o consumo em coquetéis sofisticados para mostrar que um bom drink também pode ser feito com uma boa cachaça.

Uma outra estratégia a ser explorada é o chamado mercado de produtos com identidade, características por exemplo de bebidas produzidas em regiões com denominação de origem ou com terroir que possam contribuir para tornar a cachaça um produto único e, portanto, com valor agregado bem maior para o produtor.

A premiunização também é uma maneira encontrada por algumas marcas para aumentar o portfólio e conquistar margens mais elevadas. Embalagem sofisticada, produto de altíssima qualidade e uma boa campanha de marketing são vitais para emplacar uma boa cachaça premium. Os fabricantes não costumam investir muito em marketing e isso dificulta o avanço das vendas no setor. Estimular o consumo em diferentes ocasiões e para novos consumidores é uma alternativa utilizada por grandes players para elevar os volumes de vendas. O público jovem é um alvo freqüente em ativações feitas em baladas, bares e ambientes badalados das grandes capitais do país.

Mais ativações

Aproveitando o Dia da Cachaça, comemorado oficialmente em 13 de setembro, alguns fabricantes criaram ações específicas em bares e restaurantes. Promoções e uma variedade de drinks especiais foram criados para a data. A cachaça entrou como protagonista em pratos gourmets e também foi oferecida em dobro no cardápio de bebidas. Ativações como essas precisam ser replicadas para estimular o consumo entre pessoas que não são consumidores habituais da bebida.

A celebração oficial do Dia da Cachaça em 13 de setembro acontece porque nesse dia no ano de 1661, a bebida se tornou regulamentada para produção e consumo em território nacional. Não sem antes ter sido preciso lutar: um ano antes, produtores chegaram a organizar um protesto contra a proibição pela corte portuguesa. O evento, que ocorreu no Rio de Janeiro, ficou conhecido como A Revolta da Cachaça. A data foi instituída oficialmente no Brasil através de Decreto.

Qualidade supera desafios

Entre os desafios para o aumento do consumo da bebida no país, a carga tributária elevada continua sendo o principal. Os fabricantes pagam ao redor de 82% de impostos, impedindo investimentos em tecnologia e divulgação dos produtos, além de estimular a informalidade, que também é muito elevada neste segmento. Estimativas apontam para uma informalidade acima dos 80%.

Mesmo assim, produtos de altíssima qualidade despontam nos mercados nacional e internacional. Recentemente, a cachaça Samanaú envelhecida, produzida em Caicó, no Rio Grande do Norte, foi considerada a melhor cachaça do mundo em avaliação da publicação Tastings dos Estados Unidos.

Samanaú foi considerada, recentemente, a melhor cachaça do mundo por publicação americana

A Samanaú foi definida como “excepcional” e recebeu uma breve descrição em que é apontada com “aromas doces e notas de confeitaria de canela, cardamomo, caramelo, creme de maple e doce de leite, com corpo acetinado, vibrante, fluído, de fruta semi-seca, elegante, com notas semi-longas que remetem à baunilha cremosa, lavanda, creme de coco, com um toque final de castanha de caju”. Segundo a classificação da revista, a Samanaú é “uma cachaça encorpada envolvendo uma cápsula de sabor apimentada e uma grande garrafa com mil possibilidades de ser bebida”.

Cachaça de terroir

A Famigerada Mansa é armazenada em dornas de Jequitibá Rosa por um período médio de 2 anos

Outra cachaça que vem ganhando destaque no mercado é a Famigerada nas versões Bruta e Mansa. Produzida com a cana Java, numa propriedade localizada na Serra Geral, no norte de Minas Gerais, a Famigerada preserva um legado de gerações na produção de cachaça artesanal, combinando modernas técnicas de controle de qualidade com os conhecimentos empíricos dos sertanejos. O resultado é uma cachaça de característica leve, frutada e muito bem equilibrada seja na versão Bruta, como na Mansa armazenada em tonéis de Jequitibá Rosa por um período de 2 anos.

As duas marcas, Samanaú e Famigerada, estiveram presentes na Cachaça Trade Fair, realizada em setembro em São Paulo. Evento dirigido a compradores, distribuidores e profissionais do setor, recebeu cerca de 30 fabricantes de cachaça de diversas regiões do País, como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e São Paulo. Uma iniciativa fundamental para promoção e desenvolvimento de negócios e de conhecimento no setor.

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