O futuro das cervejarias artesanais

Executivos de várias cervejarias fizeram uma análise sobre as mudanças comportamentais e como elas podem impactar o futuro das cervejarias. Novos modelos de negócios, sustentabilidade, eficiência e outros assuntos fundamentais para a sobrevivência e sucesso dessas empresas
são abordados nessa reportagem

Por Carlos Donizete Parra

A indústria cervejeira, como todas as outras, está no meio desse redemoinho de transformações, rápidas e exponenciais, que exigem agilidade e conhecimento que nem sempre estão ao alcance das pessoas. “O que aprendemos no passado ajuda pouco a resolver os problemas do futuro”, explica Vicente Falconi, em entrevista recente à FRST Falconi. “As inovações sempre existiram, mas hoje estão muito mais aceleradas, por isso, o ser humano se depara cada vez mais com temas desconhecidos. Isso são problemas e por isso são desconhecidos porque senão não seriam problemas”, explica Vicente Falconi.

Os problemas acontecem mais rápido do que as soluções aparecem. As empresas precisam estar preparadas para oferecer soluções rápidas de acordo com as demandas dos clientes. A tecnologia é fundamental para agilizar e resolver tais problemas. A transformação digital é uma jornada que envolve processos, tecnologia e pessoas. Principalmente pessoas! Elas são o ativo principal das mudanças. Precisam de treinamento, capacitação e uma nova cultura organizacional que privilegie a experimentação, agregação de valor, propósito, diversidade e transparência. E como olhar lá na frente sem perder o “time” do presente? O futuro parece cada vez mais próximo e é extremamente importante participar ativamente das questões que estão pulsando na sociedade. Para saber que rumo seguir e alinhar algumas estratégias perguntamos a alguns executivos: Como será o futuro da cerveja artesanal? Acompanhem suas opiniões e descubram os melhores caminhos.

COMO SERÁ O FUTURO DA CERVEJA ARTESANAL?

Gustavo Barreira, CEO, CBCA

Gustavo Barreira, CEO, CBCA

Podemos dividir essa análise em duas partes. A primeira pensando no longo prazo e a segunda parte fazendo um breve retrospecto sobre a situação presente das cervejarias artesanais. No longo prazo, vejo que a evolução no padrão de consumo do brasileiro vem trazendo uma migração dos produtos convencionais para os especiais, assim como acontece em outras categorias como o vinho, por exemplo. Essa mudança é irreversível e contínua, na medida que o mercado de cervejas artesanais ainda deve crescer 20% ao ano nos próximos quatro anos pelo menos. Portanto, vejo o mercado sólido e com boas perspectivas.
Já no que diz respeito ao momento atual, dois anos de pandemia machucaram muito as cervejarias e hoje capital de giro é o principal gargalo para uma retomada da oferta para atender à crescente demanda.

Bruno Brito,
Diretor e Fundador, Cervejaria Dogma

Bruno Brito, Diretor e Fundador, Cervejaria Dogma

As grandes indústrias sempre estarão ai com produtos de massa e com custos e preços baixos. Acredito que as empresas do nosso nicho que terão sucesso no futuro serão as que conseguirem associar produtos de qualidade, de alto valor agregado e oferecendo experiência aos consumidores. Após a pandemia percebemos que o público quer mais do que apenas consumir, ele deseja ter uma imersão no consumo e as cervejarias terão que se adaptar a essa nova realidade através de storytellings, treinamento de brigadas e experiências multissensoriais que atraiam os clientes e gerem identificação com os produtos.

Aloisio Xerfan, CEO, Blondine Bebidas Artesanais

Eu vejo o futuro das cervejas artesanais no Brasil dividido em dois caminhos para os próximos anos devido à crise econômica e política instauradas no país. No aspecto econômico, na minha visão, a recuperação de renda, diretamente ligada ao consumo de nossos produtos, será lenta. Para mim, o primeiro caminho é o das cervejas artesanais independentes focadas em “micro lotes” e inovação, com vendas diretas a consumidores via site ou localmente em sua unidade, muitas delas como brew pubs. No outro caminho, as cervejas artesanais distribuídas ou associadas a grandes grupos tomarão cena nas redes de varejo e restaurantes, trazendo maiores volumes. Terão que ter competitividade para continuar crescendo e ampliando volumes, porém com margens cada vez mais apertadas.

Rodrigo Veronese, Mestre-cervejeiro,
Brewine Leopoldina

Rodrigo Veronese, Mestre-cervejeiro, Brewine Leopoldina

O futuro das cervejarias artesanais é a continuação do desenvolvimento de produtos inovadores, de aproximação e de mostrar experiências diferenciadas aos consumidores com os quais elas estão conectadas.

 

MODELOS DE NEGÓCIOS DAS CERVEJARIAS ARTESANAIS

Gustavo Barreira, CEO, CBCA

O mercado de cervejas artesanais é muito jovem no Brasil e vários modelos ainda podem se provar eficientes. Na atual conjuntura, acredito que os modelos mais sustentáveis estão nos extremos: de um lado nano cervejarias e brew pubs e do outro, cervejarias artesanais que já atingiram um porte maior, acima de 1,5 milhão de litros anuais.

Aloisio Xerfan, CEO
Blondine Bebidas Artesanais

Aloisio Xerfan, CEO, Blondine Bebidas Artesanais

O modelo de negócio das cervejarias artesanais do futuro será mais voltado ao “produto” em si, com diferencial na velocidade do desenvolvimento e de identificar uma oportunidade e transformá-la em produto. Vejo também que estarão cada vez mais longe da distribuição. A inovação será focada no líquido mesmo sem margens para uma garrafa ou lata diferente devido à falta de interesse por parte dos fornecedores.

Bruno Brito, Diretor e Fundador, Cervejaria Dogma

O futuro da cerveja artesanal está em plantas mais modernas, com menos funcionários e maior produtividade deixando assim espaço para as empresas investirem na experiência dos clientes, tanto em lojas próprias quanto em pdvs parceiros.

Victor Marinho, Sócio e Mestre-cervejeiro
Cervejaria Dádiva

Victor Marinho, Sócio e Mestre-cervejeiro, Dádiva Cervejaria

Acho que no caso específico da cerveja artesanal, o modelo que tem se consolidado cada vez mais é o de brew pubs ou de cervejarias que têm um tap room e focam no consumo local. Cada vez isso se fortalece mais. Eu acredito que as empresas maiores, nacionais, vão enfrentar uma redução. Antigamente, há uns cinco ou dez anos, todo mundo queria atender todos os estados, ter a maior abrangência possível. Agora, nos últimos dois ou três anos, ficou muito claro que a empresa que fortaleceu o consumo local teve, e vai continuar tendo, uma maior sustentabilidade econômica, um crescimento mais sustentável. Eu não tenho dúvida de que ter um bar próprio, de cervejaria de venda local ou uma rede de bares próprios é a tendência.

Rodrigo Veronese, Mestre-cervejeiro, Brewine Leopoldina

Cada cervejaria terá que criar seu próprio nicho, seja mais local, de vendas para algum bar, de venda direta ao consumidor, ou focada em venda de volume. O modelo de negócios dependerá muito da proposta em que a cervejaria está disposta a investir, do tipo de tecnologia que ela vai usar para fabricar as cervejas, somando ao contexto de onde ela será instalada. Ou seja, dependerá muito das decisões de quem quer investir em cerveja. O mais importante é entender que este é um negócio e precisa ser bem controlado, por conta de todas as variáveis que estão ao redor de produzir, elaborar e comercializar este tipo de produto.

Para a Brewine Leopoldina, por exemplo, faz todo o sentido, dentro do nosso modelo de negócio, apostar em cervejas como Italian Grape Ale, por conta da conexão com a Famiglia Valduga. Nós temos acesso a matéria-prima de qualidade e às barricas de carvalho por onde passam algumas de nossas cervejas, queremos aproveitar ao máximo essa expertise. Temos nos esforçado bastante para melhorar e tornar cada vez mais proveitosa essa ligação do elegante mundo do vinho com a singularidade das cervejas artesanais.

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