Pensando fora da caixinha

As cervejarias artesanais buscam alternativas de embalagens,
modelos denegócios e novos produtos que possam
torná-las diferenciadas e atrativas aos consumidores

| CARLOS DONIZETE PARRA |

No mercado de artesanais como em todos os outros sem prevale a pena ser diferente, pensar
fora da caixinha. Por fatores diversos, que incluem criatividade, flexibilidade, desprendimento, compartilhamento e até por questões de sobrevivência, o cervejeiro artesanal tem um comportamento interessante no lançamento de novos produtos: pensa primeiro e com detalhes no produto que será fabricado e em quem vai consumí-lo. Parece óbvio isso, mas não é. No Brasil e no mundo, muitos produtos são lançados para completar o portfólio, para melhorar o faturamento da empresa, para participar de determinado nicho de mercado etc. Isso também é importante.

No entanto, a estratégia das cervejarias artesanais permite que ela esteja mais ‘colada’ com seu público, otimizando esforços e recursos utilizados no desenvolvimento e lançamento do produto, além de satisfazer de imediato as necessidades dos consumidores.

Esse vínculo também garante mais engajamento e fidelização das marcas, além de posicionar as cervejas como produtos premium no mercado. O consumidor iniciante é atraído por produtos com sabores inusitados, embalagens com formatos diferentes, tampas especiais, enfim novas experiências que sendo positivas são fundamentais para fidelização desse público.

Um outro aspecto que deve se tornar cada vez mais crucial é a qualidade. A padronização das cervejas não é tarefa fácil de se obter. Requer controles mais sofisticados, automação de processos, treinamento da mão de obra, tecnologia de produção. A cerveja artesanal precisa ter qualidade para manter seu público e buscar novos patamares de vendas.

Os empresários do setor buscam características para suas cervejas que as tornem diferenciadas e possam conquistar consumidores que ainda não experimentaram seus produtos ou que ainda não estão convencidos de que vale a pena pagar um pouco mais por uma cerveja de melhor qualidade.

Já são mais de 700 cervejarias e cerca de 9500 rótulos diferentes. Receitas diferenciadas, ingredientes de qualidade, sabores inusitados, embalagens especiais, enfim é preciso usar muita criatividade e conhecimento para não ser só mais uma nesse mercado, principalmente nas grandes cidades do país.

Marca própria A criação de cervejas para estabelecimentos específicos seguindo o modelo ‘marca própria’ é algo que vem sendo bastante utilizado pelas cervejarias.

O mestre cervejeiro da Wäls, Roberto Leão e o chef da La Vera Pizzeria Italiana, Leonardo Fontanelli celebram o lançamento da cerveja artesanal La Vera
Foto: Paulo Cunha / Outra Visão Comunicação

Recentemente, a Cervejaria Wäls anunciou a união com a La Vera Pizzeria Italiana para o lançamento de uma cerveja artesanal exclusiva com o rótulo que leva o nome da casa. “A ideia da criação desta cerveja foi sugestão do Tiago Carneiro, um dos fundadores e diretor da Cervejaria Wäls. Tiago é cliente da La Vera, desde nossa inauguração em 2015”, revela com orgulho o proprietário e chef da La Vera Pizzeria Italiana, Leonardo Fontanelli.

A cerveja artesanal La Vera produzida pela Cervejaria Wäls é do tipo Pale Ale, refrescante e de cor acobreada, com aromas marcantes, que vão do cítrico ao floral. A cerveja tem 5% de teor alcoólico e é vendida exclusivamente na La Vera Pizzeria em garrafa de 600 ml pelo valor de R$ 20,00 cada. “Desenvolvemos o rótulo para a La Vera pensando em sua história e suas pizzas artesanais contemporâneas legítimas italianas”, explica o mestre cervejeiro da Wäls, Roberto Leão, responsável pela criação da cerveja.

A cerveja artesanal La Vera Pale Ale é vendida exclusivamente na La Vera Pizzeria em garrafa de 600ml – Foto: Paulo Cunha / Outra Visão Comunicação

Perfeita para acompanhar os 31 sabores de pizza, 4 antepastos, 3 focaccias, 2 calzones servidos na La Vera, a nova cerveja artesanal tem sido um sucesso entre os clientes. “É uma cerveja que harmoniza com tudo”, destaca o chef Leonardo Fontanelli. “Temos muito orgulho da parceria com a Cervejaria Wäls, que está conosco desde o início. Crescemos juntos. Desde que começamos a servir a cerveja La Vera, ela se tornou a campeã de vendas na pizzaria”, completa.

A La Vera Pizzeria também serve todo o portfólio da Wäls, inclusive a cerveja Wäls Brut, top de linha da cervejaria que demora 9 meses para ficar pronta, além das sazonais.

Pizza contemporânea A parceria para o lançamento de cervejas seguindo esse modelo deve levar em consideração as características da cervejaria e do parceiro para que haja sinergia e um ganho de imagem para ambos, além do aspecto financeiro é claro.

Inaugurada em 2015, em Belo Horizonte (MG), com proposta de ser um serviço de entrega de pizzas contemporânea italianas, a La Vera Pizzeria Italiana cresceu nos seus três primeiros anos de atividades e em janeiro de 2018 passou a atender os clientes em um novo endereço, num ambiente maior, mais sofisticado e aconchegante.

A La Vera possui um forno de pizza especial, italiano, que não esquenta a cozinha e tem capacidade para assar até oito pizzas de uma vez.

Para este tipo de pizza, a farinha possui técnicas de blend, é moída em pedra, biológica, com longa maturação. “Tudo tem muita técnica, tudo é pesado por grama, todos os ingredientes têm alta qualidade, inclusive a farinha, o sal, o azeite extra virgem. A massa ganha alta hidratação”, detalha Leonardo.

A maioria dos ingredientes vem da Itália, a farinha é da marca Petra, sendo que a La Vera é um partnership da marca. O recheio é balanceado, com ingredientes especiais e alguns artesanais, produzidos pelo chef Leonardo.

Linha de cervejas com adição de frutas da Ashby quer levar ao consumidor uma experiência sensorial única

Experiência de consumo Para deixar a criatividade fluir, a Ashby decidiu apostar nas combinações frutadas feitas com cervejas especiais de trigo, utilizando laranja, framboesa e pêssego. O consumidor não precisa ser especialista em maltes, leveduras e lúpulos para se apaixonar pela nova linha de cervejas especiais lançada pela Ashby.

A proposta é uma combinação de sabores e aromas com extremo bom gosto, trazendo experiências sensoriais exclusivas aos consumidores. Em um mercado altamente competitivo, a diferenciação é fator decisivo para aumentar as vendas e fidelizar os consumidores.

“Ter uma linha de produtos com potencial para conquistar cada vez mais consumidores é um trunfo importante e fundamental”, explica Scott Ashby, fundador da cervejaria.

Trazendo esse olhar diferenciado, o portfólio da Ashby conta com 12 rótulos de cervejas especiais, tendo opções que levam aromas como laranja e framboesa com pêssego. Esse é o caso da Ashby Wheat Raspberry, uma cerveja de trigo frutada, de alta fermentação. De cor escura opalescente, com aroma de cravo, canela, características do malte, framboesa e pêssego, sabor balanceado e amargor moderado, com teor alcoólico de 6,7%.

Outra novidade dessa linha é a Ashby Wheat Orange, uma cerveja de trigo frutada, de alta fermentação. De cor amarelo claro, opalescente, com aroma de cravo, canela, características do malte e laranja, além de sabor balanceado entre malte e lúpulos especiais, com teor alcoólico de 6,7%.

A estratégia da Schornstein é oferecer ao consumidor o maior leque possível de embalagens e produtos para atingir um público mais abrangente

Embalagens A Schorstein optou por fornecer o maior leque de embalagens possível entre as artesanais com o objetivo de atingir um público mais abrangente. Para isso lançou as primeiras long necks da empresa, completando o portfólio que já conta com garrafas de 500 ml e latas, além de barris, é lógico.

A Schornstein Soul será comercializada em garrafas transparentes de 280ml, com 3,5% de teor alcoólico e apelo para levar a cerveja artesanal a um novo consumidor.

É isso que espera o diretor da marca, Adilson Altrão. “Queremos que esse modelo chegue à baladas, locais de consumo ao ar livre e postos de combustíveis, por exemplo. Temos certeza de que ela será a porta de entrada para que o consumidor descubra que a cerveja pode exceder as expectativas”, explica Altrão. A receita é a mesma já vendida em latas.

“Buscamos um posicionamento de produzir cerveja para todos os públicos: desde os apaixonados até quem está ingressando neste universo. Por isso variamos desde o portfólio de produto – das mais leves às cheias de personalidade – e também em embalagens”, comenta ele.
A cervejaria completa 12 anos em 2018 e começou comercializando apenas garrafas de 500ml. Em 2017 ingressou com as latas e este ano estreia a long neck.

O trampolim das ciganas O crescimento da cerveja artesanal no Brasil passa, sem dúvidas, pelas cervejarias ciganas. A produção colaborativa ou que podemos também classificar como uma terceirização da produção, é chamada no meio cervejeiro como “cigana”. Muitas cervejarias com marcas bem representativas no mercado iniciaram através desse modelo de negócios e muitas outras continuam aparecendo a todo momento no mercado nacional.

A Van Been faz parte desse grupo. Em 2012, Dante Casarotti, após ser presenteado por sua esposa com um curso de fabricação de cerveja caseira, se apaixona pelo processo e inicia a produção para seu próprio consumo. “Picado pelo bichinho”, como dizem no setor, o hobby toma a forma empreendedora, e sua história dá o nome à cervejaria. Van Been é uma homenagem ao sobrenome da família de sua mãe, de origem holandesa.

Com enxuta produção, visando desenvolvimento de sabor com qualidade, a Van Been entra no mercado produzindo suas cervejas na fábrica da Carranca, na cidade de Avaré, interior de São Paulo.

Ainda Cigana, Van Been já tem planos de expansão para outros estados brasileiros em 2018

“Como sou apreciador há alguns anos, me tornei seletivo para saborear, dessa forma, para desenvolver as receitas, busquei atender ao paladar de consumidores mais exigentes, desbravando o universo cervejeiro da melhor forma, com parcerias com fábricas com melhor custo benefício, insumos de primeira e design diferenciado para atrair o público”, declara Casarotti, proprietário da Van Been.

O empreendedor aprofundou seus estudos sobre a família Van Been (referência para o nome da empresa), e constatou que as aventuras e experiências de vidas de seus antepassados seria uma ótima forma de ilustrar seus produtos, com isso, os rótulos contam um pouco da história da família, com um misto de ficção e realidade.

A Van Been produz 2.500 litros de cervejas por bimestre. “A principio atendemos só o estado de São Paulo, capital, Jundiaí, Campinas, Guarulhos, na região do ABC Paulista e Osasco. Mas como o mercado está em expansão, crescendo a cada ano uma média de dois dígitos, acredito que seja possível em 2018 outros estados receberem as cervejas Van Been”, finaliza Casarotti.

Segue o líder No meio corporativo, ‘fazer benchmarking’ é uma das expressões mais utilizadas e, no caso das cervejas artesanais, seguir os passos do mercado americano não é nada mal.

A Brewers Association, associação que representa as pequenas e independentes cervejarias artesanais nos Estados Unidos, anunciou em março os dados referentes a 2017. O setor fechou o ano com mais de 6,300 cervejarias em operação, e uma participação de 12,7% de market share em volume do total da indústria cervejeira.

Em 2017, as craft breweries americanas produziram 25.4 milhões de barris, e tiveram um aumento de 5% em volume comparado ao ano anterior e 8% de crescimento em valor, representando 23,4% de market share, um total de 26 bilhões de dólares.

Microcervejarias e brewpubs ficaram com 76% desse mercado. Mesmo em um contexto não muito atraente onde o mercado de cervejas em geral apresentou queda de 1% em volume, as cervejas artesanais cresceram por volta de 5%, demonstrando sua força e dinamismo.

“A indústria de cerveja artesanal vem se adaptando a uma nova realidade do mercado americano, consolidado e mais maduro”, disse Bart Watson, economista chefe da Brewers Association. “Os amantes de cerveja estão seguindo uma tendência que é o consumo em cervejarias próximas às suas casas. Ao mesmo tempo, cresce o desafio e a competitividade da experiência dos canais de distribuição. Um mercado mais competitivo exige adequações das cervejarias e, para isso, elas aumentaram seu mix de produtos para suportar essa pressão maior do mercado”, explica Bart Watson.

O número de cervejarias cresceu 16% em 2017, totalizando 6,372 cervejarias no país, sendo 3,812 microcervejarias, 2,252 brewpubs, 202 cervejarias artesanais regionais e 106 grandes que não são caracterizadas como craft breweries. Cervejarias pequenas e independentes representam 98% das cervejarias em operação. Ao longo do ano nasceram 997 novas cervejarias e 165 fecharam – uma taxa pequena de 2.6%. Somando-se as cervejarias e brewpubs, o setor de craft beer emprega mais de 135 mil pessoas nos Estados Unidos, um acréscimo de cerca de 6 mil empregos em relação a 2016.

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