Adequação à nova rotulagem nutricional e seus reflexos na modernização do parque de garrafas de vidro retornáveis: Impactos operacionais e geração de resíduos de papel

Este estudo busca analisar os impactos da atualização das normas de rotulagem nutricional no sistema de garrafas de vidro retornáveis, considerando os aspectos operacionais, regulatórios e a geração de resíduos decorrentes desse processo

Por Vitória Rodrigues Borges

A atualização das normas de rotulagem nutricional no Brasil, estabelecida pelas RDC nº 429/2020, Instrução Normativa nº 75/2020 e RDC nº 727/2022, promoveu mudanças significativas na forma de comunicação das informações ao consumidor, com destaque para a rotulagem frontal e a padronização da tabela nutricional. No setor de bebidas, essas exigências impactam diretamente sistemas produtivos baseados em embalagens retornáveis, especialmente garrafas de vidro retornáveis (RGB), amplamente utilizadas devido à sua viabilidade econômica e contribuição à sustentabilidade. Este estudo tem como objetivo analisar os impactos dessas alterações no contexto industrial, por meio de um estudo de caso realizado em uma linha de envase de refrigerantes. A pesquisa caracteriza-se como aplicada, de abordagem qualitativa e exploratória, com coleta de dados realizada por observação direta em ambiente industrial, entrevistas com técnicos das áreas envolvidas e análise da percepção do consumidor. Os resultados evidenciam desafios operacionais relevantes, como dificuldades na aplicação de rótulos sobre garrafas previamente litografadas, aumento de paradas de linha, necessidade de adequações no processo de lavagem e investimentos em novos equipamentos.

Observou-se, ainda, a geração de um novo tipo de rejeito no processo produtivo, associado ao uso de rótulos de papel, além de impactos na percepção do consumidor, que passa a questionar a autenticidade do produto devido à sobreposição de informações. Conclui-se que as soluções adotadas apresentam caráter predominantemente paliativo, evidenciando um desalinhamento entre as exigências regulatórias e a realidade operacional dos sistemas baseados em embalagens retornáveis.

1 Introdução

As garrafas retornáveis constituem um modelo de embalagem baseado na reutilização do recipiente após o consumo do produto, permitindo seu retorno à indústria para higienização e novo envase. Esse sistema está diretamente associado aos princípios da economia circular, ao prolongar o ciclo de vida das embalagens e reduzir a necessidade de matérias-primas virgens.

Os recipientes de vidro, nesse contexto, destacam-se como uma das formas mais tradicionais e eficientes de embalagem reutilizável. Historicamente, o vidro é considerado uma das mais antigas embalagens manufaturadas, com indícios de sua invenção na Ásia há cerca de 6.000 anos. Obtido a partir da fusão de compostos inorgânicos a altas temperaturas e posterior resfriamento até um estado rígido e não cristalino, o vidro apresenta elevada estabilidade físico-química, sendo amplamente utilizado no envase de líquidos ao longo da história.

Com o avanço tecnológico e a introdução de materiais como plásticos e metais, o vidro passou a competir com alternativas mais leves e de menor custo logístico. Ainda assim, mantém relevância estratégica devido à sua capacidade de reutilização sem perdas significativas de propriedades, o que o posiciona como uma solução alinhada às demandas contemporâneas por sustentabilidade (ABIVIDRO, 2000). Nesse cenário, as garrafas de vidro retornáveis (RGB) consolidaram-se na indústria de bebidas, sendo tradicionalmente associadas a sistemas de múltiplos ciclos de uso, muitas vezes com litografia aplicada diretamente na superfície, contendo informações fixas de marca e identidade visual.

A rotulagem de alimentos, por sua vez, configura-se como um elemento central na interface entre indústria e consumidor, sendo responsável por assegurar a clareza, a transparência e a confiabilidade das informações disponibilizadas sobre os produtos. Nesse contexto, a recente atualização do marco regulatório brasileiro de rotulagem nutricional introduziu mudanças relevantes, como a obrigatoriedade da rotulagem frontal de advertência e a padronização da tabela nutricional, com o objetivo de facilitar a compreensão e apoiar escolhas alimentares mais conscientes. Embora tais avanços representem um importante progresso em termos de saúde pública, seus desdobramentos sobre sistemas produtivos já estabelecidos revelam-se complexos. No caso específico das embalagens de vidro retornáveis, a presença de litografias permanentes na superfície das garrafas reduz a flexibilidade necessária para atualização das informações exigidas, demandando a incorporação de soluções complementares, como a aplicação de rótulos de papel com cola fria. Essa adaptação, por sua vez, introduz novos desafios técnicos relacionados à aderência, ao alinhamento e à compatibilidade com diferentes geometrias de vasilhames, impactando diretamente a eficiência operacional dos processos industriais.

Diante desse contexto, observa-se um descompasso entre as exigências regulatórias e a realidade operacional da indústria de bebidas, especialmente em sistemas que utilizam um parque heterogêneo de garrafas, composto por modelos antigos e novos. A transição para embalagens com superfícies lisas e padronizadas, adequadas à aplicação de rótulos atualizáveis, demanda investimentos em equipamentos, reestruturação de processos e maior controle operacional. Além disso, surgem novos impactos no processo produtivo, como o aumento de paradas de linha, a necessidade de ajustes nos sistemas de lavagem e a geração de um novo tipo de rejeito associado ao uso de rótulos de papel, evidenciando a complexidade da adaptação às novas exigências.

Apesar da relevância do tema, observa-se que a literatura científica ainda apresenta uma lacuna significativa no que se refere à análise integrada dos impactos da nova rotulagem nutricional em sistemas baseados em embalagens retornáveis. A maior parte dos estudos concentra-se de forma isolada nos aspectos regulatórios da rotulagem ou nos benefícios ambientais das embalagens reutilizáveis, sem explorar de maneira aprofundada as interações entre esses dois elementos no contexto operacional da indústria. Nesse sentido, ainda são escassas as pesquisas que abordam, de forma aplicada, os efeitos dessas exigências sobre variáveis como eficiência produtiva, estabilidade de processo, geração de resíduos e percepção do consumidor, especialmente em cenários caracterizados pela coexistência de diferentes tipologias de vasilhames. Tal lacuna evidencia a necessidade de investigações que articulem teoria e prática, contribuindo para uma compreensão mais abrangente dos desafios enfrentados pela indústria de bebidas frente às transformações regulatórias.

A relevância deste estudo justifica-se pela necessidade de compreender os efeitos dessas transformações sob a perspectiva técnica, operacional e ambiental, considerando que os sistemas de embalagens retornáveis são amplamente utilizados e representam uma estratégia consolidada de sustentabilidade na indústria de bebidas. A análise dos desafios enfrentados nesse processo contribui para o desenvolvimento de soluções mais eficientes e para a avaliação da viabilidade desse modelo frente às novas exigências regulatórias, além de fornecer subsídios para tomadas de decisão mais alinhadas à realidade industrial.

Dessa forma, este trabalho tem como objetivo analisar os impactos da atualização das normas de rotulagem nutricional sobre o sistema de garrafas de vidro retornáveis, com foco nos aspectos operacionais, regulatórios e na geração de resíduos. Para isso, o artigo está estruturado em seis seções: inicialmente, apresenta-se esta introdução; em seguida, o referencial teórico aborda os principais conceitos relacionados à rotulagem nutricional e às embalagens retornáveis; posteriormente, descreve-se a metodologia adotada; na sequência, são apresentados e discutidos os resultados obtidos; e, por fim, são expostas as conclusões do estudo.

2 Referencial Teórico

2.1 Embalagens de vidro e sistemas retornáveis: conceito e evolução

O crescimento populacional, aliado às transformações nos padrões de consumo, tem intensificado significativamente a geração de resíduos sólidos, impulsionando a produção de novos produtos, embalagens e tecnologias. Na ausência de uma gestão adequada, esse cenário contribui para um processo contínuo de degradação ambiental, com impactos diretos sobre os ecossistemas e a qualidade de vida da população. Tal contexto evidencia as limitações do modelo econômico linear tradicional, fundamentado na lógica de extração, produção e descarte, o qual se mostra insustentável no longo prazo. Nesse sentido, torna-se essencial a integração das dimensões econômica, social e ambiental no desenvolvimento de sistemas produtivos mais resilientes e sustentáveis (KORHONEN et al., 2018).

Como resposta a esses desafios, emergem abordagens inovadoras voltadas à reestruturação da gestão de recursos ao longo do ciclo produtivo. A inovação social destaca-se nesse processo ao propor soluções originais para problemas coletivos, especialmente aqueles relacionados às desigualdades socioambientais e às condições precárias de vida (TAYLOR, 1970). Paralelamente, a economia circular consolida-se como um modelo estratégico orientado à recuperação de valor, por meio da reutilização, reciclagem e reinserção de materiais nos sistemas produtivos, reduzindo a geração de resíduos e a dependência de matérias-primas virgens (GEISSDOERFER et al., 2017; CAJUELA; PÁDUA, 2024).

Nesse contexto, os sistemas de embalagens retornáveis configuram-se como uma aplicação prática dos princípios da economia circular, baseando-se na reutilização de recipientes após o consumo, mediante sua devolução ao sistema produtivo para posterior higienização, inspeção e reinserção em novos ciclos de uso. Esse modelo, frequentemente associado a mecanismos de incentivo econômico, como sistemas de depósito reembolsável, contribui para a ampliação do ciclo de vida das embalagens e para a redução da necessidade de produção de novos recipientes (ADAM, 2026).

Do ponto de vista ambiental, as embalagens retornáveis apresentam vantagens significativas, ao reduzir a geração de resíduos e minimizar impactos associados à produção de materiais descartáveis. Além disso, sua adoção contribui para a diminuição das emissões de gases de efeito estufa e para a preservação de recursos naturais, configurando-se como uma estratégia mensurável de promoção da sustentabilidade (ADAM, 2026). No âmbito operacional, essas embalagens são projetadas para suportar múltiplos ciclos de uso, passando por etapas de coleta, triagem, limpeza e inspeção, garantindo sua integridade antes da reinserção no processo produtivo.

Entre os materiais utilizados nesse sistema, o vidro destaca-se como uma das soluções mais consolidadas, devido à sua elevada durabilidade, estabilidade físico-química e capacidade de reutilização sem perda significativa de propriedades. Conforme apontado pela ABIVIDRO (2000), o vidro pode ser reutilizado diversas vezes antes de seu descarte ou reciclagem, mantendo suas características originais, o que o torna amplamente empregado na indústria de bebidas.

Entretanto, apesar de seus benefícios ambientais e operacionais, os sistemas de embalagens retornáveis enfrentam desafios crescentes relacionados à adaptação às novas demandas tecnológicas e regulatórias. No setor de bebidas, essas limitações tornam-se ainda mais evidentes diante da necessidade de atualização constante das informações presentes nas embalagens, especialmente em função das recentes exigências de rotulagem nutricional. A rigidez física e funcional desses sistemas, historicamente estruturados para durabilidade e repetição, contrasta com a necessidade de flexibilidade informacional imposta pela legislação, evidenciando um cenário de tensão entre sustentabilidade e conformidade regulatória.

Dessa forma, compreender a evolução e os fundamentos das embalagens retornáveis torna-se essencial para a análise de suas limitações e potencialidades no contexto atual, marcado por transformações nos padrões de consumo, nas exigências normativas e nas estratégias de sustentabilidade industrial.

2.2 Rotulagem de alimentos e atualização normativa no Brasil: função, evolução e implicações regulatórias

A rotulagem de alimentos constitui um dos principais instrumentos de comunicação entre a indústria e o consumidor, desempenhando papel essencial na garantia da transparência, da segurança alimentar e da adequada identificação dos produtos. Nesse contexto, o rótulo configura-se como a principal fonte de acesso às informações nutricionais, permitindo ao consumidor conhecer a composição dos alimentos, incluindo ingredientes, valor energético e teor de nutrientes, além de influenciar diretamente sua confiança nas informações disponibilizadas (SOUSA et al., 2020). Inicialmente concebida com caráter predominantemente informativo, a rotulagem evoluiu ao longo do tempo para incorporar funções mais amplas, incluindo aspectos educativos e regulatórios. Nesse sentido, passou a atuar não apenas como meio de descrição do produto, mas como ferramenta estratégica para orientar escolhas alimentares, reduzir assimetrias de informação e promover a saúde pública, acompanhando transformações nos padrões de consumo e nas exigências da sociedade.

Com o avanço desse entendimento, tornou-se necessária a atualização dos marcos regulatórios, de modo a tornar as informações mais acessíveis e compreensíveis ao consumidor. No Brasil, esse processo foi consolidado por meio da publicação da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 429/2020 e da Instrução Normativa nº 75/2020, posteriormente complementadas pela RDC nº 727/2022, que estabeleceram novos critérios para a rotulagem nutricional de alimentos embalados. Essas normativas introduziram mudanças significativas, como a obrigatoriedade da rotulagem nutricional frontal de advertência, a reformulação da tabela nutricional e a padronização de elementos visuais, com o objetivo de facilitar a leitura e a interpretação das informações pelo consumidor (ANVISA, 2020a; ANVISA, 2020b; ANVISA, 2022).

Essas transformações reforçam o papel da rotulagem como instrumento regulatório ativo, capaz de influenciar não apenas o comportamento do consumidor, mas também as práticas produtivas da indústria de alimentos e bebidas. Ao exigir maior clareza, padronização e atualização das informações, as novas normas impõem às empresas a necessidade de adaptação contínua de seus processos e sistemas de embalagem. Dessa forma, a evolução da rotulagem nutricional no Brasil evidencia uma mudança de paradigma, na qual a comunicação com o consumidor passa a ser orientada por critérios mais rigorosos de saúde pública, ao mesmo tempo em que amplia os desafios técnicos e operacionais para os sistemas produtivos consolidados.

2.3 Conflito técnico: rotulagem moderna VS embalagens retornáveis tradicionais

A implementação das novas exigências de rotulagem nutricional no Brasil, embora orientada por diretrizes de saúde pública, tem gerado impactos significativos sobre os sistemas produtivos da indústria de alimentos e bebidas. Essas exigências não se limitam à atualização de informações, mas implicam alterações estruturais nos processos industriais, especialmente no que se refere ao design e à aplicação de rótulos. Nesse contexto, observa-se que a necessidade de adequação às novas normas tem exigido investimentos adicionais e reconfiguração de práticas produtivas consolidadas, evidenciando um cenário de tensão entre conformidade regulatória e viabilidade operacional.

De acordo com estudo publicado no Brazilian Journal of Development, um dos principais impactos associados à nova legislação refere-se ao aumento dos custos industriais, uma vez que “os mais citados foram o elevado gasto com alterações (68,8%) […] e não conseguir elaborar os rótulos até a data prevista para a legislação entrar em vigor (43,8%)”. Esse dado evidencia que a adequação normativa ultrapassa o campo documental, atingindo diretamente a estrutura produtiva das empresas. Além disso, o mesmo estudo aponta que a elaboração de novos rótulos e o possível descarte de embalagens antigas configuram fatores críticos, com implicações tanto econômicas quanto ambientais, reforçando a complexidade do processo de transição regulatória.

Quando esse cenário é analisado sob a perspectiva de sistemas baseados em embalagens retornáveis, como as garrafas de vidro reutilizáveis, os desafios tornam-se ainda mais evidentes. Isso ocorre porque esses sistemas operam com um parque de embalagens já existente, muitas vezes composto por garrafas com litografia fixa, o que limita a flexibilidade necessária para atender às constantes atualizações exigidas pela legislação. Como alternativa, a aplicação de rótulos de papel surge como solução técnica viável, porém introduz novos entraves operacionais, como dificuldades de aderência, desalinhamento e maior exigência nos processos de lavagem para remoção de resíduos.

Adicionalmente, observa-se que a necessidade de adaptação à nova rotulagem tem levado as indústrias a adotarem estratégias que vão além da simples alteração de rótulos, incluindo mudanças no design das embalagens e até reformulação de produtos. Conforme destacado no estudo, “a principal modificação apontada foi a mudança no design da embalagem”, evidenciando que as exigências legais impactam diretamente decisões de engenharia e desenvolvimento de produto. Esse movimento demonstra que a rotulagem, antes considerada um elemento acessório, passa a influenciar de forma estrutural a concepção e operação dos sistemas produtivos.

Dessa forma, o conflito entre a rotulagem moderna e os sistemas tradicionais de embalagens retornáveis evidencia um desalinhamento entre a dinâmica regulatória e a realidade industrial. Enquanto a legislação exige flexibilidade, atualização constante e padronização das informações, os sistemas retornáveis são, por natureza, baseados em durabilidade, repetição e padronização física das embalagens ao longo do tempo. Esse contraste revela a necessidade de soluções que conciliem os avanços regulatórios com a manutenção da eficiência operacional e dos benefícios ambientais associados ao uso de embalagens reutilizáveis.

2.4 Geração de novos resíduos no processo produtivo: o caso dos rótulos de papel

A adequação dos sistemas produtivos às novas exigências de rotulagem nutricional tem implicado não apenas mudanças operacionais, mas também a introdução de novos fluxos de resíduos no processo industrial. No contexto das embalagens retornáveis de vidro, a substituição ou sobreposição da litografia por rótulos de papel aplicados com cola fria representa uma solução técnica para garantir flexibilidade na atualização das informações. Entretanto, essa alternativa modifica significativamente a dinâmica do ciclo produtivo, especialmente nas etapas de lavagem e preparação das garrafas para o reenvase.

Durante o retorno das embalagens ao ambiente industrial, as garrafas passam por processos de lavagem destinados à remoção de contaminantes, incluindo os rótulos aplicados. Esse processo envolve a atuação combinada de ações químicas e mecânicas, nas quais o ataque cáustico com soda quente, frequentemente associado ao uso de aditivos, promove a remoção de compostos orgânicos e a desagregação dos materiais aderidos à superfície do vidro (AFONSO, 2008). Nesse contexto, os rótulos de papel, compostos por material celulósico, impressão em frente e verso e adesivos, são desprendidos da superfície do vidro por ação química. Posteriormente, esses resíduos são retirados do sistema por dispositivos específicos, como extratores, não sendo passíveis de reintegração ao processo produtivo. Diferentemente do vidro, que mantém sua integridade e pode ser reutilizado, o papel perde suas propriedades estruturais após a lavagem, sendo caracterizado como rejeito do processo.

Nesse contexto, o conceito de rejeito torna-se fundamental para a compreensão desse novo fluxo gerado. Conforme definição, rejeito pode ser entendido como “aquilo que é descartado, excluído, recusado ou não aceito, sendo o que sobra após um processo de seleção” (LIMA, 2026). Aplicando essa concepção ao ambiente industrial, os rótulos de papel removidos durante a lavagem enquadram-se como rejeitos, uma vez que não atendem aos critérios de reaproveitamento dentro do sistema produtivo e demandam destinação adequada.

Além disso, a remoção eficiente desses rótulos requer o uso de insumos químicos específicos, como soluções alcalinas e desincrustantes, que atuam na quebra da adesão da cola fria à superfície do vidro. Esse fator aumenta a complexidade operacional do processo de lavagem, elevando o consumo de água, energia e produtos químicos, além de gerar efluentes com maior carga de contaminantes. Dessa forma, observa-se que a introdução dos rótulos de papel, embora resolva uma limitação regulatória, transfere parte do impacto para as etapas de limpeza e tratamento.

Assim, a adoção de rótulos de papel em sistemas de embalagens retornáveis evidencia uma mudança no perfil de resíduos gerados na indústria de bebidas. Um sistema anteriormente caracterizado pela alta circularidade passa a incorporar um fluxo linear de descarte, associado aos rótulos removidos. Esse cenário reforça a necessidade de revisão das estratégias de sustentabilidade, considerando não apenas a reutilização das embalagens, mas também os impactos indiretos decorrentes das adaptações exigidas pela legislação de rotulagem. Sob a perspectiva da economia circular, sistemas produtivos devem priorizar a manutenção do valor dos materiais pelo maior tempo possível, por meio de estratégias como reutilização, reciclagem e reinserção no ciclo produtivo, reduzindo a geração de resíduos e a extração de recursos naturais (GEISSDOERFER et al., 2017; KORHONEN et al., 2018).

Diante das discussões apresentadas, observa-se que a evolução das embalagens retornáveis e da rotulagem de alimentos ocorreu de forma não necessariamente sincronizada, resultando em tensões entre princípios de sustentabilidade, exigências regulatórias e limitações operacionais dos sistemas produtivos. Enquanto as embalagens de vidro retornáveis consolidam-se como uma estratégia eficiente sob a ótica da economia circular, a crescente complexidade das normas de rotulagem nutricional impõe a necessidade de maior flexibilidade informacional, muitas vezes incompatível com a rigidez física e funcional desses sistemas. Nesse contexto, soluções como a aplicação de rótulos de papel surgem como alternativas viáveis, porém introduzem novos desafios técnicos e ambientais, especialmente relacionados à geração de rejeitos e ao aumento da complexidade dos processos de lavagem. Assim, evidencia-se um cenário de transição, no qual a indústria busca equilibrar conformidade regulatória, eficiência operacional e sustentabilidade. É nesse ponto que se insere o presente estudo, ao analisar, sob a perspectiva prática, como essas transformações se manifestam no ambiente industrial, contribuindo para a compreensão dos impactos reais da adequação à rotulagem em sistemas baseados em embalagens retornáveis.

3 A pesquisa

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa e exploratória, com o objetivo de analisar os impactos das novas legislações de rotulagem no contexto de embalagens retornáveis no setor de bebidas.

A coleta de dados foi realizada por meio de visitas técnicas em ambiente industrial, permitindo a observação direta dos processos produtivos relacionados ao envase, lavagem e rotulagem de garrafas retornáveis. Durante essas visitas, foram analisadas as condições operacionais, os tipos de embalagens utilizadas e as adaptações implementadas para atender às exigências regulatórias vigentes.

Além disso, foram conduzidas entrevistas com profissionais das áreas de produção, qualidade e manutenção, com o intuito de compreender os desafios enfrentados na implementação das novas práticas de rotulagem. A coleta de dados foi realizada por meio da aplicação de um formulário estruturado na plataforma Microsoft Forms, permitindo a padronização das respostas e a análise comparativa das percepções dos participantes.

Ao todo, 11 colaboradores participaram da pesquisa, incluindo supervisores de produção, técnicos de elétrica, produção e qualidade, todos com experiência profissional igual ou superior a três anos na indústria. Esse perfil contribuiu para a obtenção de percepções qualificadas, baseadas na vivência prática dos processos produtivos.

As respostas obtidas possibilitaram a identificação de limitações operacionais, dificuldades técnicas e das principais estratégias adotadas pela indústria para garantir a conformidade com a legislação vigente, fornecendo subsídios relevantes para a análise dos impactos da nova rotulagem no ambiente industrial.

No que se refere à percepção do consumidor, foi realizado um estudo exploratório por meio de visitas a supermercados, nas quais foram conduzidas entrevistas diretas com consumidores na faixa etária de 17 a 25 anos. Durante a abordagem, os participantes foram expostos ao produto com as alterações de rotulagem, especialmente a aplicação de rótulos sobre garrafas previamente litografadas, e convidados a relatar suas percepções de forma espontânea.

Os relatos foram registrados e posteriormente analisados de forma descritiva, com o objetivo de avaliar o nível de aceitação das novas embalagens, bem como identificar possíveis interpretações negativas, como associações a falhas de qualidade, práticas inadequadas ou suspeitas quanto à autenticidade do produto. Essa abordagem permitiu captar percepções imediatas do consumidor em ambiente real de compra, contribuindo para uma análise mais próxima da realidade de mercado.

Adicionalmente, foi realizada a análise descritiva dos processos industriais, com foco em duas etapas críticas: o processo de lavagem das garrafas retornáveis e o processo de rotulagem. No processo de lavagem, foram observadas as etapas de remoção de resíduos e rótulos antigos, destacando-se a importância da eficiência na limpeza para garantir a qualidade final do produto. Já no processo de rotulagem, foram avaliados os métodos de aplicação de rótulos de papel com cola fria, bem como as dificuldades associadas à aplicação em superfícies irregulares ou previamente litografadas.

Os dados obtidos foram analisados por meio de análise de conteúdo, com categorização temática das respostas, buscando identificar padrões, desafios e oportunidades de melhoria, com base na comparação entre as exigências regulatórias e as práticas adotadas no ambiente industrial.

4  Análise e discussão dos resultados

4.1 Caracterização do processo e dos vasilhames utilizados

A análise foi realizada em uma linha de envase de bebidas carbonatadas que utiliza garrafas de vidro retornáveis (RGB), operando com um parque misto de vasilhames. Observou-se a presença de três principais tipologias de garrafas em circulação: vasilhames de parede curva com litografia aplicada diretamente no vidro, vasilhames de parede reta também com litografia e, mais recentemente, garrafas de parede reta com superfície lisa, desenvolvidas especificamente para a aplicação de rótulos.

Conforme ilustrado na Figura 1, pode-se evidenciar um vasilhame de vidro retornável com acabamento de parede curva, característico de modelos mais antigos em circulação no parque de garrafas.

Figura 1 – Vasilhame de parede curva com litografia

Fonte: Elaborado pelo autor (2026)

Esse tipo de embalagem apresenta geometria não linear ao longo do corpo, o que influencia diretamente a aplicação de rótulos, especialmente no que se refere à aderência e ao alinhamento. Além disso, observa-se a presença de elementos estruturais típicos desse padrão, como variações no diâmetro ao longo da altura da garrafa, que dificultam a padronização do processo de rotulagem quando comparados a vasilhames de parede reta.

Conforme ilustrado na Figura 2, observa-se um vasilhame de vidro retornável com geometria de parede reta e presença de litografia aplicada diretamente na superfície. Esse modelo representa uma transição entre os padrões mais antigos e os mais recentes, pois, embora apresente maior uniformidade geométrica em comparação aos vasilhames de parede curva, ainda mantém limitações quanto à flexibilidade de atualização das informações, uma vez que a litografia é fixa.

Figura 2 – Vasilhame de parede reta com litografia

Fonte: Elaborado pelo autor (2026)

 

A superfície reta favorece parcialmente o processo de rotulagem, contribuindo para melhor aderência e alinhamento quando comparada às garrafas curvas; no entanto, a presença da impressão permanente no vidro pode gerar conflitos visuais quando há sobreposição de rótulos, além de limitar a padronização plena exigida pelas novas legislações.

Conforme ilustrado na Figura 3, observa-se um vasilhame de vidro retornável com geometria de parede reta e superfície lisa, característico dos modelos mais recentes desenvolvidos para atender às novas exigências de rotulagem.

Figura 3 – Vasilhame de parede reta lisa

Fonte: Elaborado pelo autor (2026)

Esse tipo de embalagem não apresenta litografia aplicada diretamente no vidro, o que permite maior flexibilidade na atualização das informações por meio da aplicação de rótulos. A uniformidade da superfície favorece significativamente o processo de rotulagem, proporcionando melhor aderência, alinhamento e padronização, além de reduzir a necessidade de ajustes operacionais na linha de produção. Dessa forma, esse modelo representa uma evolução tecnológica no parque de vasilhames, alinhando-se às demandas regulatórias e contribuindo para maior eficiência e estabilidade do processo produtivo.

A análise visual dos diferentes tipos de vasilhames apresentados nas Figuras 1, 2 e 3 evidencia a heterogeneidade do parque de garrafas em circulação, destacando diferenças geométricas e de acabamento superficial que impactam diretamente o processo de rotulagem. Enquanto os modelos de parede curva e litografados apresentam limitações técnicas associadas à aplicação e padronização dos rótulos, os vasilhames de parede reta e superfície lisa demonstram maior compatibilidade com as exigências atuais. No entanto, a coexistência desses diferentes padrões dentro da mesma linha produtiva configura um cenário operacional complexo, no qual ajustes constantes tornam-se necessários para manter a estabilidade do processo.

Essa condição é corroborada pelos dados obtidos nas entrevistas realizadas com profissionais da área produtiva, os quais indicam, de forma recorrente, que a mistura de diferentes tipos de vasilhames é um dos principais fatores de instabilidade na linha. Conforme observado nos formulários aplicados, a presença simultânea de garrafas com diferentes geometrias e padrões de acabamento dificulta a padronização dos ajustes da rotuladora, impactando diretamente a eficiência operacional.

Conforme apresentado na Figura 4, observa-se que a dinâmica operacional predominante na linha de produção está associada à utilização de um parque misto de vasilhames, evidenciado pela predominância de 70% das respostas indicando a presença de diferentes tipos de garrafas em circulação.

Fonte: Elaborado pelo autor (2026)

De acordo com as entrevistas aplicadas, essa configuração reflete uma realidade operacional caracterizada pela coexistência simultânea de vasilhames com diferentes geometrias e acabamentos, incluindo garrafas de parede curva, parede reta litografada e parede reta lisa.

Esse cenário evidencia que o tipo de dinâmica de operação presente na linha não é baseado em padronização, mas sim em um sistema adaptativo, no qual os equipamentos e operadores precisam ajustar constantemente os parâmetros de processo para atender às variações dos vasilhames. Tal condição foi recorrente nas respostas dos entrevistados, que destacaram a mistura de garrafas como um dos principais fatores de instabilidade operacional, dificultando o ajuste ideal da rotuladora e impactando diretamente a eficiência da linha.

Além disso, a baixa frequência de utilização de vasilhames padronizados, como garrafas exclusivamente de parede reta ou lisa (10% cada), reforça que o processo ainda se encontra em fase de transição, no qual a modernização do parque de garrafas não ocorreu de forma completa. Dessa forma, os dados apresentados na Figura 4, aliados às percepções dos colaboradores, evidenciam que a principal característica da operação atual é a variabilidade, fator que contribui diretamente para o aumento de ajustes, paradas de linha e inconsistências na aplicação dos rótulos.

4.2 Análise dos impactos observados

A partir das entrevistas realizadas com profissionais de diferentes níveis hierárquicos da operação, incluindo operadores, técnicos e supervisores, foi possível identificar, de forma consistente, os principais impactos associados ao processo de rotulagem em linhas que operam com garrafas de vidro retornáveis em condição de parque misto. A análise qualitativa das respostas evidencia que a variabilidade dos vasilhames, especialmente a coexistência entre modelos de parede curva, parede reta e garrafas litografadas, constitui o principal fator de instabilidade do processo.

Conforme apresentado na Figura 5, observa-se a distribuição dos impactos mais relevantes associados ao processo de rotulagem. Segundo os entrevistados, a operação da linha em condições de mistura de vasilhames obriga a adoção de velocidades inferiores às ideais, como forma de minimizar falhas na aplicação dos rótulos. Essa redução compromete diretamente a capacidade produtiva da linha, configurando-se como um dos impactos mais relevantes do ponto de vista de desempenho operacional.

Fonte: Elaborado pelo autor (2026)

A necessidade frequente de ajustes destacou-se como o principal impacto observado, correspondendo a 50% das respostas dos entrevistados, o que evidencia a elevada instabilidade operacional do processo em condições de parque misto de vasilhames. Esse resultado indica que a variabilidade geométrica e estrutural das embalagens impede a manutenção de parâmetros operacionais fixos, exigindo intervenções constantes na regulagem dos equipamentos e comprometendo a estabilidade e a eficiência da linha produtiva.

Em seguida, a redução da velocidade de produção aparece como o segundo impacto mais relevante, representando 30% das respostas. Esse resultado evidencia que, como estratégia para mitigar falhas na aplicação dos rótulos, a linha passa a operar abaixo de sua capacidade nominal. Tal condição implica em perda de eficiência produtiva, uma vez que a redução da velocidade é utilizada para minimizar inconformidades no processo de rotulagem. Embora não mensurada quantitativamente, essa perda foi apontada de forma recorrente pelos entrevistados, configurando-se como um fator crítico de impacto no desempenho operacional da linha.

O aumento de paradas na linha corresponde a 20% das respostas, sendo também um impacto significativo. Essas paradas estão diretamente associadas aos ajustes recorrentes e às correções necessárias para manter a qualidade mínima do processo.

Outro fator relevante identificado na análise dos impactos operacionais refere-se à temperatura da bebida no momento da aplicação do rótulo. No processo de envase de bebidas carbonatadas, o produto é conduzido em baixas temperaturas após a etapa de enchimento, o que resulta na formação de umidade na superfície externa dos vasilhames. Essa condição compromete diretamente a eficiência da rotulagem, uma vez que a presença de umidade reduz a aderência do rótulo e favorece falhas como deslizamento, enrugamento e desalinhamento.

Conforme relatado pelos entrevistados, a ineficiência do sistema de secagem, especialmente do soprador de garrafas, agrava esse problema, impedindo a remoção adequada da umidade antes da aplicação do rótulo. Nesse contexto, foi apontado que, para otimizar o processo e garantir melhores condições de aplicação, a bebida deve estar em uma faixa de temperatura próxima a 11,5 °C, reduzindo a condensação e contribuindo para maior estabilidade do processo. Dessa forma, evidencia-se que o controle térmico do produto, aliado à eficiência dos sistemas de secagem, constitui um fator crítico para o desempenho da rotulagem em linhas de bebidas carbonatadas.

Por outro lado, o aumento de retrabalho não foi apontado como impacto predominante nesta análise específica, não apresentando representatividade percentual nas respostas coletadas. No entanto, conforme discutido nas entrevistas qualitativas, esse fator ainda se manifesta de forma indireta, principalmente em decorrência das falhas de aplicação do rótulo.
De forma geral, os resultados apresentados na Figura 5 reforçam que os impactos mais críticos estão relacionados à instabilidade operacional e à perda de eficiência da linha, sendo a necessidade de ajustes constantes o principal fator limitante do desempenho produtivo.

De forma integrada, os impactos operacionais observados demonstram que as limitações do processo de rotulagem não podem ser analisadas isoladamente, estando diretamente associadas às diferentes tipologias de vasilhames em circulação. Garrafas de parede curva apresentam maior propensão a falhas de alinhamento e aderência devido à sua geometria não uniforme, enquanto vasilhames de parede reta litografados, embora mais estáveis do ponto de vista físico, impõem restrições visuais e operacionais relacionadas à sobreposição de informações. Por sua vez, garrafas de parede reta e superfície lisa apresentam melhor desempenho no processo, evidenciando maior compatibilidade com as exigências atuais de rotulagem.

No entanto, a coexistência desses diferentes padrões na mesma linha produtiva potencializa os efeitos de variáveis como temperatura da bebida, umidade superficial e eficiência dos sistemas de secagem, tornando o processo altamente dependente de ajustes constantes. Assim, conclui-se que os problemas identificados incluindo falhas de aplicação, aumento de paradas, retrabalho e geração de rejeitos, são intensificados pela falta de padronização do parque de vasilhames, reforçando que a variabilidade do sistema constitui o principal fator de impacto sobre a eficiência operacional da rotulagem.

4.3 Percepção do consumidor frente às alterações na rotulagem

Após a análise dos impactos operacionais associados ao processo de rotulagem, torna-se necessário ampliar a discussão para além do ambiente produtivo, incorporando a perspectiva do consumidor. Essa abordagem é relevante, pois as inconformidades identificadas na linha, como desalinhamentos, enrugamentos e variações na aplicação dos rótulos, não permanecem restritas ao processo industrial, mas são transferidas diretamente ao produto final disponibilizado no mercado.

Nesse contexto, a percepção do consumidor assume papel estratégico na avaliação da eficácia das adaptações realizadas no sistema de embalagens retornáveis. Alterações visuais decorrentes da aplicação de rótulos sobre garrafas litografadas ou da utilização de vasilhames com diferentes geometrias podem gerar interpretações equivocadas quanto à qualidade, autenticidade ou integridade do produto.

Tal percepção é evidenciada no seguinte relato de consumidor, direcionado especificamente às garrafas de parede curva: “Observando e analisando percebe-se que são os mesmos produtos, porém com diferenças nítidas. Em relação ao produto, nota-se uma certa variação entre os rótulos; um deles apresenta-se visivelmente diferente, com o rótulo amassado, rasurado e com defeitos visuais. É possível notar que o rótulo está sobreposto ao rótulo original, o que gera uma suspeita se o produto é, de fato, autêntico ou de produção duvidosa.”

O relato apresentado evidencia, de forma clara, a materialização dos problemas previamente identificados na análise operacional. Aspectos como rótulos enrugados, sobreposição em garrafas litografadas e falhas de aderência amplamente citados nas entrevistas com os profissionais da linha são percebidos pelo consumidor como indícios de baixa qualidade ou inconsistência no produto.

Além disso, a suspeita levantada quanto à autenticidade do produto reforça um ponto crítico: falhas de rotulagem não impactam apenas indicadores internos de eficiência e qualidade, mas também comprometem diretamente a credibilidade da marca e a confiança do consumidor. Em mercados altamente competitivos, a aparência do produto exerce papel determinante na decisão de compra, sendo a rotulagem um dos principais elementos de comunicação visual.

Cabe ressaltar que esse cenário está diretamente relacionado ao processo de transição do parque de vasilhames, o qual se mostra essencial para a compreensão da problemática. Historicamente, a empresa operou por anos com um modelo padronizado de garrafas. No entanto, com a introdução de novas exigências regulatórias, houve a necessidade de incorporação de novos modelos de vasilhames, resultando na coexistência de diferentes geometrias na mesma linha produtiva.

Essa transição, ainda em curso contribui para a ocorrência dos impactos operacionais e perceptivos já discutidos. Dessa forma, observa-se uma conexão direta entre as mudanças impostas pela legislação, os desafios técnicos enfrentados na produção e seus reflexos na percepção do consumidor.

Portanto, a análise integrada evidencia que a resolução dessa problemática depende não apenas de ajustes operacionais, mas principalmente da consolidação de um parque de vasilhames padronizado, alinhado às novas exigências regulatórias, de modo a garantir estabilidade produtiva e qualidade percebida pelo consumidor.

4.4 Geração de rejeito no processo produtivo: o caso do rótulo de papel

A análise do processo produtivo de bebidas em garrafas de vidro retornáveis evidência que a introdução da rotulagem por meio de rótulos de papel, em substituição ou sobreposição à litografia, resultou na geração de um novo fluxo de rejeito industrial. Diferentemente do modelo tradicional, no qual o vasilhame retornava ao processo praticamente sem a introdução de novos materiais descartáveis, o atual sistema incorpora elementos adicionais como papel, tinta de impressão e cola fria, que não possuem viabilidade de reaproveitamento dentro do ciclo produtivo.

No contexto operacional, após o retorno das garrafas provenientes do mercado, os vasilhames são submetidos ao processo de lavagem industrial, etapa fundamental para garantir condições adequadas de higienização e preparo para o reenvase. Durante esse processo, os rótulos de papel aplicados nas garrafas são removidos por ação combinada de agentes químicos e esforços mecânicos, sendo posteriormente direcionados para sistemas de separação, como extratores.

Conforme observado na Figura 6, registrada durante a visita técnica, pode-se evidenciar o acúmulo do material resultante desse processo, composto por fragmentos de rótulos de papel já degradados, misturados a resíduos de cola e umidade. Esse material, após sua remoção do sistema de lavagem, é direcionado para descarte, não havendo possibilidade de reinserção no processo produtivo. A imagem ilustra de forma clara a transformação do rótulo em rejeito, evidenciando a perda de sua integridade física e sua descaracterização enquanto insumo.

Figura 6 – Descarte de rejeitos provenientes do papel

Fonte: Elaborado pelo autor (2026)

Diferentemente do vidro, que mantém sua integridade estrutural e pode ser reinserido no ciclo de produção, o papel sofre degradação durante o processo de lavagem, perdendo suas propriedades físicas e impossibilitando sua reutilização. Dessa forma, o rótulo passa a ser classificado como rejeito do processo, uma vez que não atende aos critérios necessários para reintegração ao sistema produtivo e exige destinação final adequada. Esse comportamento reforça a mudança no perfil de resíduos gerados pela indústria, que passa de um modelo predominantemente circular para a incorporação de fluxos lineares de descarte. Observa-se, portanto, que a adequação às exigências regulatórias de rotulagem, embora necessária, introduz externalidades operacionais e ambientais que devem ser consideradas na avaliação da sustentabilidade do sistema de embalagens retornáveis.

5 Conclusão

O presente estudo teve como objetivo analisar os impactos operacionais decorrentes da adequação à nova legislação de rotulagem nutricional em sistemas produtivos que utilizam garrafas de vidro retornáveis, considerando as exigências estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). A partir da articulação entre o referencial teórico e os dados obtidos por meio de observação em campo, análise de processo, registros visuais e entrevistas com profissionais da área produtiva, foi possível compreender de forma abrangente os desafios enfrentados pela indústria de bebidas nesse contexto de transição regulatória.

As mudanças introduzidas pelas RDC nº 429/2020, IN nº 75/2020 e RDC nº 727/2022 estabeleceram novos padrões de comunicação nutricional, exigindo maior clareza, padronização e atualização das informações. No entanto, os resultados demonstram que a realidade operacional dos sistemas baseados em embalagens retornáveis ainda apresenta limitações estruturais significativas para o pleno atendimento dessas exigências. A coexistência de diferentes tipologias de vasilhames incluindo garrafas de parede curva litografadas, parede reta litografadas e parede reta lisa, evidencia um parque heterogêneo, cuja variabilidade compromete a estabilidade e a eficiência do processo de rotulagem.

A análise dos dados e das entrevistas revelou que a dinâmica predominante de operação é caracterizada pela mistura de vasilhames na linha produtiva, fator apontado como o principal elemento de complexidade operacional. Essa condição resulta em dificuldades de padronização dos ajustes da rotuladora, impactando diretamente o alinhamento, a aderência e a qualidade visual dos rótulos. Como consequência, observam-se efeitos como aumento de paradas não planejadas, redução da velocidade de produção, elevação dos índices de retrabalho e maior incidência de rejeições no processo.

Adicionalmente, verificou-se que os vasilhames antigos, especialmente aqueles com litografia aplicada e geometria curva, apresentam limitações técnicas que dificultam sua adequação às novas exigências regulatórias. A prática de aplicação de rótulos sobre superfícies litografadas, embora operacionalmente viável como solução de curto prazo, compromete a padronização estética do produto e pode gerar interpretações equivocadas por parte do consumidor, afetando a percepção de qualidade e confiabilidade.

Outro aspecto relevante identificado refere-se à introdução de um novo fluxo de rejeito no processo produtivo: o rótulo de papel. Diferentemente do modelo tradicional de embalagens retornáveis, no qual o vidro é reinserido no ciclo produtivo sem perdas significativas, a aplicação de rótulos implica na geração de resíduos não reaproveitáveis. Conforme evidenciado durante a etapa de lavagem, esses rótulos são removidos por ação química e mecânica, sendo posteriormente segregados por extratores e destinados ao descarte. Esse cenário representa uma mudança no perfil de resíduos do processo, incorporando um fluxo linear em um sistema originalmente circular, além de aumentar a demanda por insumos químicos e impactar os sistemas de tratamento de efluentes.

Diante dos resultados obtidos, conclui-se que os desafios associados à adequação da rotulagem em sistemas de embalagens retornáveis extrapolam o campo da conformidade regulatória, configurando-se como uma questão sistêmica que envolve aspectos de engenharia de processo, logística, sustentabilidade e percepção do consumidor. A melhoria do desempenho operacional requer, portanto, uma abordagem integrada, que contemple a padronização do parque de vasilhames, a otimização dos fluxos logísticos, a modernização dos equipamentos e o alinhamento entre as exigências legais e a capacidade produtiva instalada.

Como recomendações, destacam-se a substituição progressiva de garrafas litografadas por modelos de parede reta e superfície lisa, a implementação de sistemas eficientes de triagem e segregação de vasilhames, o fortalecimento das práticas de manutenção e controle de processo, bem como o investimento na capacitação das equipes operacionais. Adicionalmente, torna-se relevante o desenvolvimento de alternativas tecnológicas que minimizem a geração de rejeitos associados à rotulagem, contribuindo para a preservação dos benefícios ambientais do sistema retornável.

Por fim, este estudo contribui para o aprofundamento da compreensão dos impactos da legislação de rotulagem sobre sistemas produtivos consolidados, evidenciando a necessidade de soluções que conciliem exigências regulatórias, eficiência operacional e sustentabilidade. Como limitação, destaca-se o número restrito de participantes na etapa de entrevistas, sugerindo-se, para pesquisas futuras, a ampliação da amostra e a incorporação de análises quantitativas de desempenho produtivo e geração de resíduos, a fim de fortalecer a robustez das conclusões apresentadas.

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Vitória Rodrigues Borges
Tecnóloga em Controle de Qualidade pela Universidade Leonardo da Vinci; Graduanda em Engenharia Ambiental e Sanitária pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE)
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