Crescimento na esteira da saudabilidade

No mesmo compasso em que o consumidor se interessa por produtos que podem trazer
benefícios a sua saúde, bebidas sensíveis se fortalecem no mercado,
trazendo novos desafios e soluções para a indústria

 

Kathlen Ramos

 

Bebidas sensíveis representam, atualmente 70% do faturamento da Wow! Nutrition

Sucos, chás, água de coco… Essas são algumas das bebidas classificadas no mercado como sensíveis, que são aquelas que pedem processos de produção e envase assépticos ou em altas temperaturas e que, portanto, exigem desafios tanto para a indústria de bebidas quanto para as empresas envolvidas no processo de engarrafamento.

Esse mercado tem se destacado em todo o setor na esteira do crescimento em demanda de bebidas consideradas mais saudáveis pela população, seja pela ausência de gases, baixo teor de açúcares e ingredientes naturais. “Estamos com boas perspectivas para o ano de 2019, observando que grande parte de nossos clientes são fabricantes de bebidas sensíveis”, comenta o diretor da Mcpack, Marcelo Cozak.

“Algumas categorias de bebidas sensíveis cresceram, juntas, mais de 40% em volume entre 2014 e 2018”, Marilla Lima Mesquita, Wow! Nutrition

A gerente de marketing e inovação da Wow! Nutrition, Marilla Lima Mesquita, acredita que boa parte da força das bebidas sensíveis vem do desejo dos consumidores brasileiros que, cada vez mais bem informados, têm mais consciência em relação a saudabilidade. “Grande parte dessa categoria atende as demandas dos consumidores exigentes, entregando ingredientes mais naturais e funcionais nas formulações”, pontua a gerente de marketing e inovação da Wow!Nutrition, Marilla Lima Mesquita.

Tal cenário faz com que o segmento de bebidas saudáveis cresça em ritmo acelerado no Brasil apesar das turbulências econômicas. “Algumas categorias em que atuamos, como sucos, água de coco e chás prontos para beber, juntas cresceram mais de 40% em volume entre 2014 e 2018”, acrescenta Marilla, destacando que, hoje, as bebidas sensíveis representam 70% do faturamento da empresa.

“Leite natural e aromatizado, bem como suco premium, suco puro e água de coco são muito dinâmicos, especialmente quando envasados em PET,”, Guillaume Rolland, Sidel

O vice-presidente de produtos sensíveis da Sidel, Guillaume Rolland, também reforça a força deste setor em todo o mundo, inclusive no Brasil. “Leite e leite aromatizado, bem como suco premium, suco puro e água de coco são particularmente dinâmicos, especialmente quando engarrafados em PET”, analisa.

Segundo dados fornecidos pelo executivo da Sidel, o segmento de JSNDIT em PET (contemplando sucos, refrigerantes, néctares, isotônicos e chá engarrafado em PET alcançou o volume de 2,2 bilhões de unidades em 2018) apresenta taxa de crescimento anual de 2,3% (CAGR) de 2018 a 2021, liberando 100 milhões de embalagens neste material no mercado todos os anos. “Este valor é ainda mais positivo em torno de formatos de embalagens específicos: atinge 8% em recipientes de 650 mL – 1,5 litro, segundo dados da Euromonitor”, contabiliza. Considerando o segmento de Produtos Lácteos Líquidos (LDP) engarrafados em PET, que representou 300 milhões de embalagens PET em 2018, o CAGR 2018-2021 é ainda maior. “Eles estão projetados para crescer 5% a cada ano, o que significa 50 milhões adicionais de unidades PET em três anos”, calcula Rolland, constatando que nos setores de produtos lácteos líquidos (LDP) e JNSDIT – que normalmente exigem aplicações assépticas – a reputação da Sidel está bem estabelecida. “Em 2017, 25% das vendas líquidas de equipamentos da empresa atingiram exatamente esses dois mercados, com a maioria dessas vendas sendo feitas na Europa e Ásia Central”, diz.

Apostas da indústria de bebidas

Na Wow! Nutrition, a maior parte dos esforços tem sido em inovação da categoria, a fim de atender as novas demandas do consumidor, agora atentos à composição dos produtos. “Temos investido em novas tecnologias para deixar os produtos de linha cada vez mais saudáveis, reduzindo açúcares e priorizando a utilização de ingredientes e aditivos não artificiais”, diz Marilla Mesquita.

“Um dos desafios é manter o sabor original dos ingredientes utilizados, sem refrigeração e adição de conservantes, mantendo as condições de cor, textura e capacidade nutricional”, Fabiano Rangel, Leão Alimentos

Na Leão Alimentos e Bebidas, os investimentos também têm sido expressivos em soluções para garantir a qualidade e integralidade das bebidas sensíveis. “Temos, hoje, tecnologia de barreiras físicas, filtros, elementos filtrantes e outros dispositivos de retenção de particulados, inspetores de metais, inspetores de raios x e raios gama, inspetores de pressão por células de cargas e inspetores por câmeras, tanto para embalagens primárias (latas, tampas e preformas) como para produtos acabados”, sinaliza o gerente institucional e de desenvolvimento sustentável da Leão Alimentos e Bebidas, Fabiano Rangel, destacando que a empresa também detém muita tecnologia empregada nos laboratórios de microbiologia e de análise, para monitoramento de bactérias e patógenos tanto nas matérias-primas como nos produtos finais.

“Seguindo um movimento global, hoje já aplicamos tecnologias assépticas em uma varieade de embalagens”, Mariana Azevedo, Coca-Cola Brasil

A Coca-Cola segue o mesmo ritmo. No último ano, a empresa inaugurou a sede, no Rio de Janeiro, que abriga o Centro de Inovação da empresa no Brasil. Por lá, a companhia mantém análise de novas tecnologias e métodos que possam garantir a melhor qualidade dos produtos que chegam ao consumidor. “Seguindo um movimento global, hoje nós já aplicamos tecnologias assépticas em uma variedade de embalagens, além de enchimento a quente com flexibilidade para rotulagem, o que também possibilita uma maior oferta de produtos no mercado”, afirma a diretora da área técnica da Coca-Cola Brasil, Mariana Azevedo.

Desafios envolvidos

“As bebidas sensíveis não têm conservantes ou estão mais propensas a deterioração e contaminação”, explica o diretor comercial da Krones do Brasil, Silvio Rotta. Portanto, a própria constituição da categoria, por si só, já traz grandes adversidades a todos os envolvidos na produção. “Temos uma exigência do mercado de baixar o nível dos conservantes e, em alguns anos, talvez o consumidor não os aceitem mais, somente se forem naturais”, prevê.

“As bebidas sensíveis não têm conservantes ou estão mais propensas à deterioração e contaminação, portanto, constitui grandes adversidades a todos os envolvidos na produção”, Silvio Rotta, Krones

Para Fabiano Rangel, da Leão Alimentos e Bebidas, um dos desafios está em manter o sabor original dos ingredientes utilizados, sem refrigeração e adição de conservantes, mantendo a cor, textura e capacidade nutricional. “Nossos requisitos são estabelecidos a partir dos padrões internacionais da Coca-Cola e isto influencia, diretamente, no padrão de tecnologias aplicadas em nosso processo produtivo, garantindo, assim, a qualidade e a segurança dos produtos da matéria-prima, processamento e envase, chegando a produtos íntegros, saborosos, práticos e seguros para o consumo, mesmo no caso de bebidas mais sensíveis”, garante.

Wow! Nutrition vem investindo em novas versões de chás pronto para beber

Marilla Mesquita, da Wow! Nutrition, também reforça os diversos desafios para se conquistar um processo adequado que conserve o produto sem adição de conservantes. “Utilizamos o sistema asséptico nos nossos produtos, mantemos um tratamento térmico que mantenha as propriedades nutricionais dos ingredientes e oferecemos embalagem adequadas a fim de garantir que o produto chegue íntegro até a casa do consumidor”, esclarece.

Um dos desafios das empresas que fornecem soluções para a indústria de bebidas, está relacionado à barreira do PET. Muitos produtos oxidam em contato com o oxigênio. Para tanto, a KHS tem uma tecnologia de barreira por meio de uma camada de óxido de silício dentro da garrafa. “Com esta barreira, a garrafa PET fica com qualidades semelhantes à garrafa de vidro, aumentando o possível shelf-life de um a dois meses, para, por exemplo, de nove a 10 meses. Devido ao investimento maior nessas tecnologias, essas linhas de produção normalmente são direcionadas a produtos com maior valor agregado”, pondera o gerente comercial da KHS, Marcelo Martini.

Lançamentos da indústria

Nos últimos anos, a Wow! Nutrition tem investido em novas versões de chás pronto para beber, como o FeelGood Chá Amarelo com Physalis e Chá Branco com Pitaya. A empresa também entrou na categoria de suco 100% com uma linha completa de sucos funcionais e uma linha exclusiva para o público infantil.

A empresa também aposta no lançamento do chá Leão em cápsulas compatíveis com máquinas Nespresso. Elas chegaram na versão Matte Leão Original e em dois sabores da linha premium Leão Senses: Amora, Mirtilo e Baunilha e Maracujá, Laranja e Gengibre. Os chás gourmet são outra aposta da companhia. “O sachê transparente permite uma experiência ainda mais refinada em sabores, cores e aromas”, complementa Rangel.

Linha da AdeS é 100% de origem vegetal, apta para o consumo de veganos

Com a ampliação do portfólio, a Coca-Cola Brasil lança o novo ADES, agora 100% vegetal. Com os novos sabores AdeS amêndoas, AdeS amêndoas com baunilha e AdeS coco, além do tradicional AdeS soja Original, a linha é 100% de origem vegetal, apta para o consumo de veganos.

Na General Mills, o lançamento mais recente foi uma linha de chás prontos funcionais da Mais Vita. “São quatro sabores com 0% sódio, calorias, açúcares e carboidratos, os diferentes tipos de chás auxiliam ainda na melhora do desempenho de funções corporais”, explica o diretor de marketing LATAM da General Mills, Manuel Garabato. O chá Verde com Limão Siciliano promete benefícios para o sistema digestivo e atua na desintoxicação do organismo. Por sua vez, o chá Preto com Laranja e Extrato de Guaraná é energizante e auxilia diretamente na saúde do coração. O chá Verde com Limão, Gengibre e Sabor Mel é um forte aliado do sistema imunológico, agindo como anti-inflamatório. Já o chá de Hibisco com Amora funciona como antioxidante, acelera o metabolismo e auxilia no emagrecimento.

Novas soluções para a indústria de bebidas

“A garrafa PET com comada de óxido de silício permite aumentar o shelf-life de cerca de 1 a 2 meses para, por exemplo, nove a dez meses”, Marcelo Martini, KHS

A KHS tem realizado diversos investimentos em novas tecnologias, focando no mercado de bebidas sensíveis, dividido em linhas assépticas e hot-fill. “Para linhas assépticas, estamos aprimorando as enchedoras existentes com novos conceitos de linhas blocadas, tanto para enchedoras rotativas, quanto para enchedoras lineares desenvolvidas, principalmente, para produtos low-acid”, explica Marcelo Martini, da KHS.

Na Form Fill, da KHS, a formação da garrafa é realizada diretamente pela injeção do líquido quente em alta pressão dentro do molde, gerando ganhos de energia e tempo

Para as linhas tipo hot-fill, a KHS continua trabalhando no conceito blocado tradicional (sopradora-enchedora), porém desenvolvendo uma nova gama de máquinas (Form-Fill), onde a formação da garrafa e o enchimento a quente será feito somente em uma etapa. “A formação da garrafa é realizada diretamente pela injeção do líquido quente em alta pressão dentro do molde, gerando ganhos significativos de energia, devido à formação da garrafa ser realizada por bombas hidráulicas, e não mais por compressor de ar de alta pressão”, justifica Martini.

Um dos últimos lançamentos da KHS foi a realização de um bloco entre uma sopradora rotativa e uma enchedora linear (Asbofill). “Esse sincronismo é possível com a utilização de servo-motores. A Enchedora Linear Asséptica possui diversas vantagens do ponto de vista de segurança asséptica, devido a uma zona asséptica de espaço reduzido, e a movimentos mecânicos mais lentos em relação às máquinas rotativas, gerando um fluxo de ar quase laminar dentro do equipamento”, sinaliza Martini, salientando que, hoje, o segmento de bebidas sensíveis representa um faturamento da ordem de 10% no volume da empresa, porém o potencial de crescimento é muito maior. “Acreditamos que este faturamento possa ser de 20% nos próximos cinco anos”, projeta.

Na Sidel, processos assépticos ganham novas tecnologias, desenvolvidas através de grandes investimentos em pesquisas globais

A Sidel investe em pesquisa e desenvolvimento, bem como em engenharia para fornecer inovações como o AsepticCombiPredis™. “Colocamos um foco maior no desenvolvimento de capacidades robustas e assépticas, para lidar com produtos distribuídos à temperatura ambiente. Isso inclui soluções que oferecem alta velocidade de produção e significativa flexibilidade de produto final e embalagem”, afirma Guillaume Rolland. Esta solução mescla a esterilização a seco da préforma com funções assépticas de sopro, enchimento e vedação em um único gabinete de produção. Também respeita o conceito fundamental que sustenta as regras de embalagem asséptica de última geração: produzir um produto comercialmente estéril, envasado em uma zona estéril, em um pacote previamente esterilizado. “Essa solução se difere da tecnologia asséptica tradicional porque a esterilização da embalagem ocorre durante a préforma, e não durante a fase de engarrafamento”, indica Rolland.

A ContiformAseptBloc, da Krones, é outra solução ideal para produtos sensíveis, como sucos, chás, bebidas energéticas, bebidas com partículas sólidas, leite UHT ou bebidas lácteas mescladas. Este equipamento é constituído por um sistema de bloco composto por uma sopradora estéril, uma enchedora asséptica e uma tampadora. A esterilização da preforma ocorre por meio de peróxido de hidrogênio (H2O2) no estado gasoso. Este tratamento da preforma requer menos tempo e menos energia.

Contiform Asept Bloc, da Krones, esteriliza
a preforma por meio de peróxido de hidrogênio
no estado gasoso, o que
requer menos tempo e energia

Imediatamente após o forno, as preformas ingressam em uma zona estéril hermeticamente isolada, e abandonam esta zona já como garrafas formadas, envazadas e fechadas assepticamente. A esterilização se dá em todas as etapas, até o produto final. O sistema reduz o consumo de água, e aumenta, ao mesmo tempo, a segurança microbiológica. Ao contrário das garrafas, as preformas não se encolhem durante a descontaminação. Isso permite trabalhar também na ContiformAseptBloc embalagens PET muito leves, sem nenhum problema.

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