A evolução do alumínio

Brasil tem capacidade de recursos e de consumo para que o setor cresça, mas falta competitividade para que o País consiga atingir seu potencial pleno

Novembro de 2013

Da Redação

Latas de aluminioPoucos setores passaram por mudanças estruturais tão fortes nos últimos anos quanto o setor de alumínio no Brasil. Mudanças que criaram uma nova realidade tanto do lado do suprimento quanto do lado da demanda. Por essa razão, a Bain & Company, empresa global de consultoria de negócios, acaba de realizar o estudo “Alumínio no Brasil: transformações nos últimos 15 anos” analisando o potencial do setor em nosso país e avaliando as perspectivas para 2020.
De acordo com o estudo, a demanda por alumínio cresceu fortemente nos últimos anos e deve continuar aquecida nos próximos. Embora as vantagens competitivas do alumínio versus o aço e o plástico sempre tenham sido conhecidas (reciclabilidade, resistência à corrosão, resistência mecânica com menor peso específico etc.), havia a percepção de que usar alumínio era caro demais. Com uma combinação de aumento de renda e maior conscientização sobre temas de sustentabilidade, criaram-se as condições para que a demanda pudesse começar a se materializar. Nesse sentido, a demanda interna, que no período de 1998 a 2004 oscilou entre 650 e 750 mil toneladas, sem nenhum crescimento efetivo, acelerou para mais de 1,4 milhão de toneladas em 2013, efetivamente dobrando em dez anos. Hoje, 75% do consumo de alumínio no Brasil está em quatro setores, os mesmos quatro que concentram mundialmente a demanda pelo metal: bebidas (embalagens), transportes, construção civil e eletricidade.
Marcelo Massarente, sócio da Bain & Company e líder do estudo, comenta que “todos esses setores registraram crescimento acima do PIB no período e viram o consumo relativo de alumínio crescer. As perspectivas para o futuro também são positivas. Diferentemente de aço e cimento, que são insumos muito utilizados na fase de construção da infraestrutura de um país, a curva de crescimento do consumo de alumínio x PIB de um país pode até desacelerar, mas não se reverte depois de um certo patamar de desenvolvimento”.
A partir de todos esses fatores, a Bain & Company considera razoável esperar que o consumo continue a crescer a taxas de 2x o PIB por algum tempo. Segundo as projeções do estudo, em 2020, o Brasil já poderia estar consumindo entre 2,4 e 2,8 milhões de toneladas. Essa faixa de valores ainda manteria o Brasil dentro da faixa de consumo per capita esperada, considerando o PIB projetado no final da década. “Enquanto foram necessários quase 20 anos para adicionar um milhão de toneladas ao consumo, estima-se agora que serão necessários apenas sete para adicionar mais um milhão”, complementa Massarente.

Perspectivas

Com essa configuração, a cadeia do alumínio conseguiu adicionar muito valor ao país. Nos últimos cinco anos, os investimentos passaram de R$10 bilhões e foram recolhidos mais de R$20 bilhões de impostos. Apenas em 2012, a cadeia teve um faturamento bruto na casa dos R$40 bilhões (~4% do PIB industrial) e empregou mais de 200 mil colaboradores diretos e indiretos.
No entanto, diferentemente do início dos anos 2000, a competitividade da cadeia agora é bastante questionada e boa parte desse resultado potencial está em risco. De acordo com a Bain, para os elos da Bauxita e da Alumina, as perspectivas continuam bastante positivas — a maior dúvida é quando e em que ordem devem ser implementados os projetos anunciados, que somam quase 5Mt/ano. Entretanto, o mesmo não se pode dizer do setor de Smelting. Nos últimos anos, o Brasil caiu de 6º para 8º maior produtor mundial e experimentou fechamento de 18% da sua capacidade instalada. O principal entrave do setor de Primários é a baixa competitividade no custo de energia elétrica.
“As consequências da falta de competitividade no metal Primário e na Transformação certamente terão um impacto significativo em quanto será capturado do potencial de geração de valor”, alerta Massarente.

Embalagem aluminioO estudo expõe que é difícil precisar a dimensão desse impacto, mas é bem possível imaginar um cenário no qual, em Primários, além de não se adicionar capacidade, continuaremos a ver fechamentos. Se isso ocorrer, restarão no Brasil apenas as instalações mais modernas ou com alto percentual de energia autogerada. Além disso, não serão feitos os grandes investimentos em Laminação a Quente necessários, nem adicionada capacidade para refusão de tarugos. “Em um cenário mais pessimista, nem o investimento necessário para manter a capacidade de Transformação instalada atualmente seria feito e, progressivamente, veríamos o suprimento local se reduzir”, comenta Massarente. Para esse caso, a pesquisa apresenta uma simulação que leva à conclusão de que seriam gerados aproximadamente 35 mil empregos diretos a menos e o faturamento do setor seria quase 20% mais baixo, com menos investimentos e impostos recolhidos. Além disso, o saldo da balança comercial brasileira se reduziria de quase US$5 bilhões para aproximadamente US$2,5 bilhões.
Um efeito colateral relevante seria uma reversão na atual tendência de redução da informalidade do setor. Na luta pela sobrevivência, não é difícil imaginar que certos atores possam preferir os riscos da informalidade à certeza do fechamento. O impacto é simples: menos impostos recolhidos.
Massarente conclui que “é importante que o país busque uma forma de, no longo prazo, recuperar a competitividade da produção Primária, com políticas de incentivo à renovação tecnológica dos parques e de investimento na autogeração competitiva de energia, além da desoneração da energia de mercado. Garantir a competitividade desse elo da cadeia é importante para manter também os demais elos saudáveis, como foi demonstrado”.
A Bain também pontua que é preciso incentivar a produção de Transformados, seja atuando de forma mais estrutural nos custos de conversão (por exemplo, por meio de incentivos para modernização do parque), seja atuando em alavancas para evitar que, no curto e médio prazos o setor sofra com falta de abastecimento de metal Primário (por exemplo, melhorando a logística de importação, incentivando a criação de armazéns da LME no Brasil, atuando nas tarifas de importação, buscando acordos de preferência tarifária).
“É lamentável imaginar que, em um setor onde, diferentemente do caso japonês, temos tanta abundância de matéria-prima competitiva (4a maior reserva de Bauxita do mundo), onde fomos durante tanto tempo autossuficientes e exportadores em todos os elos, quando finalmente conseguimos ter uma demanda interna sólida e próspera, possamos estar fadados a nos tornar exportadores de Alumina, grandes importadores de Primário e, muito provavelmente, também de Transformados”, finaliza Massarente.

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