Repaginando o refrigerante

Nos últimos anos, o refrigerante vem se transformando para se tornar
um produto mais saudável conforme as necessidades do consumidor atual

| CARLOS DONIZETE PARRA |

A indústria de refrigerantes vem nos últimos anos tentando vencer o grande desafio de tornar o refrigerante um produto mais saudável e, assim, satisfazer o desejo de boa parte do público consumidor de bebidas não alcoólicas no mundo.

O mercado brasileiro de refrigerante que já encolheu 6,1% em 2016, segundo pesquisa da Mintel, deve fechar 2017 com queda de 4,6%, reduzindo ainda mais o volume produzido que deve registrar 11,5 bilhões de litros. Apesar da perda em volume, o mercado de refrigerante apresenta crescimento em valor, de cerca de 2,9%. Esse aumento pode ser justificado pela alta da inflação, já que em 2016 as categorias de alimentos e bebidas sofreram inflação de 8,62%, segundo dados do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo).

Conforme análise do relatório produzido pela Mintel, o mercado de refrigerantes está perdendo espaço para outras bebidas não alcoólicas, principalmente para as bebidas que têm um apelo mais saudável. Algumas percepções negativas do brasileiro sobre refrigerantes, como quantidade elevada de açúcar e artificialidade, acabam sendo barreiras de consumo.

As indústrias estão se movimentando para trazer mais propostas saudáveis, como refrigerantes orgânicos, uso da estévia, uso de suco de fruta natural etc., mas essas propostas acabam elevando os custos e influenciando o crescimento do mercado em valor.

Segundo a pesquisa, os brasileiros vêm buscando produtos mais saudáveis, já que 36% deles declararam que “minha expectativa é que todos os produtos incluam algum benefício de saúde (ex. menos calorias, mais vitaminas etc.)”. Porém é importante também ressaltar que 17% dos consumidores de refrigerantes já sentem que os refrigerantes “não são tão baratos quanto costumavam ser”, mostrando claramente que a crise econômica no Brasil afeta o consumo da categoria.

Propostas mais saudáveis podem manter interesse na categoria
Nos próximos cinco anos, a Mintel estima que o mercado brasileiro de refrigerantes chegue a R$51 bilhões, mantendo um crescimento baixo, porém estável. No entanto, espera-se que o mercado continue perdendo em volume nos próximos cinco anos, chegando a 9 bilhões de litros em 2021. Se isso acontecer, vai representar uma perda de mais de 7 bilhões de litros de 2010 para cá (em 2010 era 16,9 bilhões de litros).

A indústria vem se movimentando para estancar essa queda com inovações de produtos relacionadas à saudabilidade. Em princípio, esses lançamentos devem contribuir para aumentar o mercado em valor, mas em volume parece que a queda é inevitável já que os consumidores demonstram vontade de experimentar e adotar novas categorias de bebidas, principalmente porque atualmente existem muitas novas bebidas entrando no mercado de não alcoólicas.

Uma das tendências discutidas no Relatório Mintel Bebidas Mistas – Brasil, Janeiro de 2017, mostra que a indústria vem lançando produtos que misturam diferentes categorias, como água de coco com chá gelado, refrigerante com café, entre outros, justamente para atender a crescente demanda do consumidor por produtos saudáveis e diferentes. As bebidas mistas oferecem misturas que proporcionam sabores inovadores, além de benefícios à saúde (por exemplo, água de coco com chá verde tem o benefício isotônico da água de coco com o efeito estimulante da cafeína do chá verde).

Na questão econômica, existe uma confiança maior do consumidor e uma pequena melhora. No começo de 2017 o mercado já apresentava desaceleração da inflação, chegando a 0,38% em janeiro – o menor índice desde 1994, segundo o IBGE. Esses resultados influenciaram o Banco Central a reduzir os juros de 13,75% para 7,5% ao ano, em novembro.

Especialistas declararam que a crise é uma das mais longas já vividas pelo país, o que dificulta a previsão sobre a retomada do crescimento, mas algumas ações do governo influenciaram positivamente a economia. Por exemplo, medidas como a liberação do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) de contas inativas anteriores a dezembro de 2015. Uma iniciativa que injetou no mercado cerca de R$ 30 bilhões. A reforma da previdência também é vista com bons olhos pelos investidores, contribuindo para o crescimento das ações na Bolsa de Valores e um conseqüente aumento dos investimentos nacionais e internacionais.

Além da questão da saudabilidade outro desafio dessa indústria é se tornar menos dependente do refrigerante e se apresentar como um produtor de vários tipos de bebidas. Num primeiro momento até parece fácil, mas sabemos que os volumes de refrigerantes são altos e acertar um produto substituto para isso não é tão simples

Um refrigerante mais natural

O Brasil não tem definições muito claras do que vem a ser um refrigerante natural e muito menos como garantir uma rastreabilidade para o refrigerante orgânico. Apesar disso já tem produtos no mercado usando essa nomenclatura em seus rótulos. Um produto saudável e nutritivo é uma exigência do consumidor atual.

O desenvolvimento de portfólio deve ser voltado para produtos que tenham características nutricionais. As bebidas com menos ou sem açúcar, livres de gorduras e sódio também devem fazer parte desse portfólio, além dos produtos fortificados e vitaminados.

A Döhler, fabricante de ingredientes para indústrias de alimentos e bebidas, lançou recentemente na drinktec uma proposta de refrigerante com baixa caloria, pouco gaseificado e que não utiliza corante caramelo em sua receita. Em substituição utiliza um extrato de malte.

Outro produto do momento é o Kombucha, um “refrigerante” natural que traz benefícios ao intestino e à saúde em geral.

O Kombucha é produzido à base de chá e passa por um processo de fermentação em que ocorre a proliferação de bactérias benéficas ao organismo.

Refrigerante precisa ser repaginado e proporcionar uma experiência sensorial diferenciada

É uma colônia de bactérias e leveduras consideradas probióticas. Elas fermentam uma mistura de chá (mate, verde ou hibisco) e açúcar que, no final do processo, pode ser saborizada com algum tipo de suco de fruta e gengibre.

O Kombucha é uma bebida refrescante, ácida e naturalmente gaseificada. Existem vários produtores artesanais fabricando o Kombucha e revendendo em lojas de produtos naturais, escolas de yoga e outros estabelecimentos comerciais. Não existe, ainda, o produto fabricado em escala industrial no Brasil.

Criar valor

Os volumes de refrigerantes são grandes e representam a maior parte do faturamento das empresas. É preciso criar diferenciais que tragam benefícios reais ao consumidor, além de buscar redução no custo do produto.

A taxação para bebidas açucaradas não é salvação para os males da obesidade como propagam seus defensores

Com a criação de valor é possível vender o refrigerante com preços que possam trazer rentabilidade ao fabricante. Simplesmente reduzir a quantidade de açúcar talvez não seja o suficiente, será preciso adicionar outros ingredientes como diferenciais do produto.

O refrigerante precisa ser repaginado para encantar o consumidor, proporcionando uma nova e refrescante experiência sensorial. Aspectos nutricionais e novas opções de sabores podem possibilitar a conquista de um público que está se afastando do produto em busca de bebidas saudáveis.

É fundamental, também, esclarecer o consumidor quanto aos mitos que se formaram em relação ao açúcar contido no refrigerante. Serão necessários investimentos em campanhas educacionais e de marketing que mostrem que o refrigerante não é o único e nem tampouco o principal responsável pela obesidade no mundo. Cerca de 75% do açúcar consumido pelo brasileiro acontece no lar e o restante, cerca de 25%, é oriundo de produtos industrializados, entre eles o refrigerante.

Apesar disso, as autoridades governamentais insistem na ideia de taxar as bebidas açucaradas, como se isso fosse capaz de reduzir os níveis de obesidade e o excesso de peso.

A taxação, reivindicada por alguns como uma forma de incentivar a escolha de alimentos considerados mais saudáveis, aumentaria o preço de um produto com açúcar, inibindo a sua compra e, consequentemente, o consumo. Assim, os brasileiros ingeririam menos calorias por dia, o que, em tese, reduziria os alarmantes índices de doenças como a obesidade. Este efeito, porém, não foi observado em países que implementaram a legislação, provando que a medida não tem eficácia comprovada nesse quesito. Na verdade, o total de calorias ingeridas pareceu não mudar significativamente.

Na Dinamarca, por exemplo, o chamado “imposto da gordura”, que abrangia também as bebidas açucaradas, foi revogado após um ano de duração, em 2011. Durante o período, 80% da população não mudou seus hábitos de consumo e muitos migraram para produtos mais baratos. Em casos extremos, parte dos consumidores passou a fazer compras nos países vizinhos.

Outro caso ocorreu em 2014, no México, que colocou a taxação em prática aumentando em 10% o valor dos gordurosos e açucarados. Nos primeiros anos, verificou-se uma leve queda nas vendas. Com o passar do tempo, entretanto, veio o efeito reverso: a procura por refrigerantes voltou a crescer e, embora o consumo diário de calorias tenha diminuído, em dois anos a média do Índice de Massa Corporal (IMC) da população continuava a aumentar.

Entenda a obesidade

O conceito de obesidade é comumente definido como alimentação desequilibrada e excessiva. Aliada ao sedentarismo, gera desproporção entre a ingestão de calorias e seu gasto. Mas, além disso, o excesso de peso resulta de vários outros fatores; condições genéticas, endócrinas, estresse, problemas de sono etc.

A doença também é causada por particularidades comportamentais da cultura moderna. Segundo a nutricionista Marcia Daskal, o ritmo acelerado das grandes metrópoles tem relação direta com a alimentação. “Com pouco tempo para a refeição, a tendência é se alimentar fora de casa, já que é a opção mais rápida. Por consequência, o ato de comer se tornou um momento de pouca ou nenhuma atenção aos sinais do corpo, como o da saciedade”, comenta.

Os especialistas reforçam a necessidade de aderir a uma dieta balanceada, combinada com exercícios físicos

Além disso, para o cardiologista e nutrólogo do Instituto Dante Pazzanese, Daniel Magnoni, a obesidade não está relacionada a um ingrediente específico. “O problema é profundo e as autoridades e profissionais de saúde devem entender que ações de educação não acontecem no curto prazo. Hoje, visando um impacto imediato no balanço calórico, a população caminha para um estilo de vida insustentável, cortando alimentos considerados ‘vilões’ sem pensar em uma mudança comportamental como um todo. Isto é muito sério”, destaca o médico.

Trazendo o mesmo ponto de vista para as bebidas açucaradas, vale checar os dados divulgados pelo último Vigitel, pesquisa realizada anualmente pelo Ministério da Saúde. Segundo o estudo, já houve uma redução de 14% no consumo de refrigerantes e sucos artificiais em dez anos, resultado dos debates realizados na sociedade civil brasileira sobre qualidade de vida e como se alimentar melhor. Porém, nota-se que a população com sobrepeso continua a crescer no País. “Isto mostra que a necessidade de mudar hábitos alimentares se dá por meio da educação nutricional. Ainda existe uma falta de conhecimento sobre escolhas conscientes que façam sentido dentro de cada estilo de vida, contemplando também a prática de atividades físicas”, comenta Marcia Daskal.

Impacto na escolha?

Além de não estabelecer uma relação direta entre o preço do produto e a redução nos índices de obesidade, a taxação de bebidas açucaradas demonstra ser um caminho incerto para a melhora da saúde dos brasileiros, já que nenhuma solução isolada é eficaz a ponto de resolver a obesidade. Frente a isso, os especialistas concordam sobre a importância da implementação de medidas públicas que impulsionem uma mudança efetiva para hábitos mais saudáveis, levando em conta trabalhar a reeducação alimentar nas escolas e nos programas de saúde, além de combater o sedentarismo, reintegrando o cidadão no espaço urbano.

As embalagens continuam sendo excelente ferramenta de vendas e diferenciação para as bebidas não alcoólicas

Outra proposta que contribuiria para mudar o cenário atual é a orientação de profissionais da saúde e da educação sobre como repassar à sociedade informações valiosas para uma alimentação equilibrada, variada e, sobretudo, saudável. “São necessárias boas políticas de saúde pública, munindo os brasileiros de informação para que façam sozinhos as escolhas condizentes com o estilo de vida. É preciso lembrar que não existe nenhum alimento ‘vilão’ ou proibido. Não basta taxar um ingrediente ou discriminá-lo, mas sim ampliar o debate para incluir quantidades adequadas e o seu consumo consciente”, aponta Magnoni.

Brasileiro quer mais informação nos rótulos

A busca por informação que possa ser transformada em uma escolha consciente já faz parte dos hábitos dos consumidores na questão dos rótulos dos alimentos. Para auxiliar empresas e consumidores, o Ibope Inteligência realizou uma pesquisa para verificar a viabilidade do “Semáforo nutricional”, um modelo de rótulo frontal que mostra a quantidade de sódio, açúcares e gorduras presentes nos alimentos e bebidas. A indicação é sinalizada como um semáforo de trânsito (nas cores verde, amarelo e vermelho). A pesquisa mostra que 67% das pessoas, ou seja, cerca de 7 em cada 10 entrevistados, preferem o semáforo nutricional, contra 31% que declaram preferir o modelo de advertência nos rótulos de alimentos e bebidas. O Semáforo nutricional é considerado mais claro e didático para 65% dos entrevistados.

A nova proposta de rotulagem nutricional frontal, que vem sendo discutida pela sociedade, tem o objetivo de trazer as informações sobre o teor de nutrientes contidos nos alimentos para a parte da frente das embalagens. A pesquisa fez a comparação entre o modelo de semáforo nutricional e o de advertência, ambos apresentados à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) como propostas para rotulagem frontal no Brasil. O tema é prioritário na agenda regulatória da Agência.

Comparação de modelos

A pesquisa ainda revela que 81% dos entrevistados avaliam que o modelo do semáforo facilita a compreensão das informações nutricionais, contra 78% do modelo de advertência. O sistema de cores usado para classificar os nutrientes em um rótulo frontal é avaliado como ótimo/bom por 85% da população, contra 74% do modelo de advertência. Além disso, 47% avaliam a facilidade de leitura e compreensão das informações com nota 9 ou 10, contra apenas 26% da avaliação do modelo de advertência.

Consulta do rótulo já é hábito

A população já tem por hábito consultar informações nas embalagens, mas ressalta a necessidade da adequação e revisão de alguns itens. Aproximadamente 3/4 da população procura, de modo geral, informações nas embalagens para auxiliar na escolha dos produtos. A tabela nutricional é o terceiro item mais buscado:
• Prazo de validade ou data de fabricação: 45%
• Preço: 24%
• Tabela nutricional/ Informação nutricional: 21%
• Advertências relacionadas à saúde (diet, light, sem colesterol, sem gordura trans, sem lactose, contém glúten, etc): 18%
• Marca ou fabricante: 13%
• Lista de ingredientes: 10%
• Quantidade: 7%

A apresentação da informação por porção e por medida caseira, complementando medidas em gramas e litros, também aparece como uma necessidade dos brasileiros, vindo ao encontro da proposta apresentada pela indústria. A pesquisa qualitativa aponta a preferência pela referência nutricional baseada em quantidades mais concretas e de fácil compreensão, como as unidades ou medidas caseiras: copo americano, xícara, colher de sopa.

O estudo foi solicitado pela Rede de Rotulagem, que reúne associações das indústrias de alimentos e bebidas não alcoólicas.

A informação por cores demonstra ter apelo popular, proporcionar comunicação instantânea e ser acessível a todos. Além disso, apresenta-se como um recurso didático, a fim de educar novas gerações e pessoas com baixa escolaridade. O modelo semáforo mostra-se ainda capaz de proporcionar uma rápida identificação no momento da compra e de permitir comparação entre alimentos, o que favorece a decisão do indivíduo e sua soberania na escolha.

Outros números da pesquisa revelam que os brasileiros procuram e querem ter acesso às informações nutricionais, mesmo que não compreendam na totalidade os dados da tabela nutricional. O modelo com cores se revela uma proposta que cumpre a função de comunicar, de modo didático, lúdico e com empatia, essas informações. Ademais o levantamento indica que o modelo teve a preferência até de quem declara “raramente ler” as informações da tabela.

“A indústria acredita que qualquer modelo de rotulagem, sozinho, não é capaz de substituir uma ação ampla de educação alimentar e nutricional, que oriente a população a entender as informações nos rótulos dos alimentos e saber como compor uma alimentação saudável e equilibrada, aliada à prática de atividade física”, Alexandre K. Jobim, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas não Alcoólicas (ABIR).

Semáforo nutricional

O modelo é um rótulo frontal que indica, por porção, a quantidade de sódio, açúcares totais e gordura saturada, coloridos em verde, amarelo e vermelho. Foi desenvolvido com base em diversos trabalhos, numa análise do cenário mundial e em revisão bibliográfica realizada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação – NEPA, da UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas.

A cor verde demonstra que os níveis do nutriente em questão (açúcar, gordura saturada ou sódio) são considerados baixos ou adequados para o consumo do alimento na porção quando associado a uma alimentação diária equilibrada.

A cor amarela demonstra que os níveis do nutriente merecem atenção, pois sinalizam que um consumo acima da porção recomendada pode comprometer o equilíbrio da alimentação diária.
A cor vermelha demonstra que os níveis do nutriente são considerados altos na porção diária recomendada e por isso devem ter uma atenção maior de consumo, quando associados a uma alimentação equilibrada.

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