Vinhos finos do Brasil – Diversidade de regiões, tipos e estilos de produtos

2ª Parte

As regiões vitivinícolas brasileiras expandiram-se nos últimos anos e buscam ser viáveis economicamente para serem efetivamente exploradas por investidores nacionais e internacionais

| CELITO CRIVELLARO GUERRA |

5. Planalto Catarinense (PC – SC)

Principais variedades de uvas tintas: Cabernet Sauvignon, Malbec, Merlot, Montepulciano, Pinot noir, Sangiovese, Syrah, Tannat, Tempranillo, Touriga, outras castas italianas.
Principais variedades de uvas brancas: Chardonnay, Sauvignon blanc.
Características gerais de uvas e vinhos:
• Teor médio de taninos dos vinhos tintos = 3,0 g/L.
• Relação (%) do grau de polimerização dos taninos: baixo/médio/alto = 10/20/70).
• Relação média taninos/matéria corante nos vinhos tintos = 5/1.
• Relação taninos das cascas/taninos das sementes nos tintos após maceração → 3,5.
• Potencial de longevidade alta a muito alta (entre 8 e 15 anos, dependendo do vinho).
• Potencial antioxidante médio e teores também médios de resveratrol e/ou quercetina.
• Acidez em geral elevada.
• pH natural dos vinhos varia entre 3,2 e 3,7.
• Teores de álcool potencial variam normalmente entre 12oGL e 13,0oGL.
• Extrato seco variável. Médio a alto na maioria dos vinhos.

A região do Planalto Catarinense guarda uma razoável semelhança com o Planalto de Palmas quanto à altitude, mas ao mesmo tempo diferencia-se bastante quanto ao relevo, ao tipo de solo, à proximidade da costa atlântica e à variabilidade dos microclimas que a compõem. Como resultado, os vinhos desta região possuem tipicidade própria bem definida, mesmo se em termos de características analíticas gerais possam guardar certa semelhança.

6. Campos de Cima da Serra (CCS – RS)

Principais variedades de uvas tintas: Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Petit Verdot, Pinot noir, Teroldego.
Principais variedades de uvas brancas: Chardonnay, Sauvignon blanc.
Características gerais de uvas e vinhos:
• Teor médio de taninos dos vinhos tintos = 4,0 g/L.
• Relação (%) do grau de polimerização dos taninos: baixo/médio/alto = 5/20/75).
• Relação média taninos/matéria corante nos vinhos tintos = 5/1.
• Relação taninos das cascas/taninos das sementes nos tintos após maceração → 3,5.
• Potencial de longevidade alta a muito alta (entre 8 e 15 anos, dependendo do vinho).
• Potencial antioxidante médio e teores também médios de resveratrol e/ou quercetina.
• Acidez ligeiramente elevada (vinhos acídulos).
• pH natural dos vinhos varia entre 3,3 e 3,7.
• Teores de álcool potencial variam normalmente entre 12oGL e 14,0oGL.
• Extrato seco médio a alto na maioria dos vinhos.

A produção vitivinícola na região dos Campos de Cima da Serra está localizada a altitudes um pouco menores em relação às regiões de altitude do estado de Santa Catarina. Em função da proximidade da costa atlântica e dos tipos de solo predominantes, os vinhos desta região guardam alguma semelhança com os produzidos no Planalto Catarinense, sendo em geral um pouco menos ácidos e, para alguns vinhos, mais encorpados.

7. Serra Gaúcha (SG – RS)

Principais variedades de uvas tintas: Ancelotta, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Marselan, Merlot, Pinot Noir, Tannat.
Principais variedades de uvas brancas: Chardonnay, Moscatos, Prosecco, Riesling Itálico, Sémillon, Trebbiano.
Características gerais de uvas e vinhos:
• Teor médio de taninos dos vinhos tintos = 2,5 g/L.
• Relação (%) do grau de polimerização dos taninos: baixo/médio/alto = 20/25/55).
• Relação média taninos/matéria corante nos vinhos tintos = 4/1.
• Relação taninos das cascas/taninos das sementes nos tintos após maceração → 2,0.
• Potencial de longevidade variável, com razoável volume de vinhos de estilo jovem.
• Potencial antioxidante médio e teores variáveis de resveratrol e/ou quercetina.
• Acidez ligeiramente elevada.
• pH natural dos vinhos varia entre 3,2 e 3,7.
• Teores de álcool potencial variam normalmente entre 11oGL e 13,0oGL.
• Extrato seco médio na maioria dos vinhos.

A região da Serra Gaúcha é a mais tradicional região vitivinícola brasileira. Abrange uma extensa área escarpada na transição entre os planaltos dos Campos de Cima da Serra e a Depressão Central do RS. Por suas características naturais, possui um número muito grande de mesoclimas e microclimas, em muitos dos quais há produção vitícola. Essa diversidade natural, somada à cultura enológica trazida pelos imigrantes italianos nela radicados, permitiu o desenvolvimento de um grande número de produtos do processamento da uva. Nela são produzidos espumantes finos (métodos: tradicional, Charmat e Moscatel), vinhos tintos secos tranquilos, vinhos frisantes, vinhos brancos secos tranquilos, vinhos rosés secos tranquilos, alguns vinhos de colheita tardia, vinhos de mesa, sucos de uva, graspa e brandies.

8. Serra do Sudeste (SS – RS)

Principais variedades de uvas tintas: Cabernet Sauvignon, Malbec, Marselan, Merlot, Pinot noir, Syrah, Tempranillo, Teroldego, Tannat.
Principais variedades de uvas brancas: Chardonnay, Viognier.
Características gerais de uvas e vinhos:
• Teor médio de taninos dos vinhos tintos = 4,0 g/L.
• Relação (%) do grau de polimerização dos taninos: baixo/médio/alto = 10/20/70.
• Relação média taninos/matéria corante nos vinhos tintos = 5/1.
• Relação taninos das cascas/taninos das sementes nos tintos após maceração → 3,0.
• Potencial de longevidade alta a muito alta (entre 6 e 12 anos, dependendo do vinho).
• Potencial antioxidante e teores de resveratrol e/ou quercetina médios a altos.
• Acidez moderada.
• pH natural dos vinhos varia entre 3,4 e 4,0.
• Teores de álcool potencial elevados (variam normalmente entre 13oGL e 15,0oGL).
• Extrato seco alto na maioria dos vinhos.


Na região da Serra do Sudeste os fatores pedológicos e climáticos são muito distintos em relação às demais regiões vitivinícolas do Rio Grande do Sul. Por exemplo, há na região solos originários de rocha granítica. E, em termos climáticos, é a região com os verões mais secos. O relevo suave ondulado favorece o trabalho mecanizado dos vinhedos e a relativa proximidade com a Serra Gaúcha atraiu investidores daquela região, que já dispunham de experiência na produção vitivinícola. Desse conjunto de fatores surgiram vinhos surpreendentes: encorpados, alcoólicos e intensos.

9. Campanha Gaúcha – parte meridional (CGM – RS)

Principais variedades de uvas tintas: Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Petit Verdot, Pinotage, Tannat, Tempranillo, Touriga.
Principais variedades de uvas brancas: Alvarinho, Chardonnay, Pinot gris, Sauvignon blanc.

Características gerais de uvas e vinhos:
• Teor médio de taninos dos vinhos tintos = 3,0 g/L.
• Relação (%) do grau de polimerização dos taninos: baixo/médio/alto = 15/20/65).
• Relação média taninos/matéria corante nos vinhos tintos = 4,5/1.
• Relação taninos das cascas/taninos das sementes nos tintos após maceração → 2,5.
• Potencial de longevidade relativamente alto (entre 3 e 10 anos, dependendo do vinho).
• Potencial antioxidante e teores de resveratrol e/ou quercetina médios.
• Acidez ótima para a harmonia gustativa dos vinhos.
• pH natural dos vinhos varia entre 3,3 e 3,8.
• Teores de álcool potencial variam entre 11,5oGL e 14,0oGL).
• Extrato seco relativamente elevado em boa parte dos vinhos.

A região da Campanha Gaúcha estende-se por uma área de 44.365 km2 e compreende os municípios de Aceguá, Alegrete, Bagé, Barra do Quaraí, Candiota, Dom Pedrito, Hulha Negra, Itaqui, Lavras do Sul, Maçambará, Quaraí, Rosário do Sul, Santana do Livramento e Uruguaiana. As vinícolas que compõem a Associação Vinhos da Campanha estão localizadas entre os paralelos 29º e 31º sul, numa altitude de 100 a 300 metros, na região que faz fronteira com Uruguai e Argentina.

Muitos dos solos da região são arenosos, possuem acidez reduzida e proporcionam boa drenagem. Quanto ao clima, os invernos são frios e úmidos. Já os verões são caracterizados por dias quentes, relativamente secos e noites frescas, com boa amplitude térmica diária. Os vinhos refletem a diversidade dos fatores naturais, sendo mais encorpados e alcoólicos nas porções central e oriental, em relação à porção meridional.

10. Campanha Gaúcha – partes central e oriental (CGC&O – RS)

Principais variedades de uvas tintas: Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Malbec, Merlot, Pinot noir, Pinotage, Ruby Cabernet, Syrah, Tannat, Tempranillo.
Principais variedades de uvas brancas: Chardonnay, Gewürztraminer, Viognier.
Características gerais de uvas e vinhos:
• Teor médio de taninos dos vinhos tintos = 3,5 g/L.
• Relação (%) do grau de polimerização dos taninos: baixo/médio/alto = 20/30/50).
• Relação média taninos/matéria corante nos vinhos tintos = 6/1.
• Relação taninos das cascas/taninos das sementes nos tintos após maceração → 2,5.
• Potencial de longevidade médio a alto nos tintos e limitado nos brancos.
• Potencial antioxidante e teores de resveratrol e/ou quercetina geralmente altos.
• Acidez moderada a baixa.
• pH natural dos vinhos médio a elevado (entre 3,5 a 4,0).
• Teores de álcool potencial elevados (13,0oGL e 15,0oGL).
• Extrato seco relativamente elevado na maioria dos vinhos.

Considerações finais

Além dos aspectos já mencionados a respeito da diversidade das principais regiões vitivinícolas brasileiras, há ainda outros que merecem ser referidos. À exceção da Serra Gaúcha, as demais regiões constituem-se de vinhedos esparsos em vastas áreas. Há ainda áreas aptas inexploradas e, mesmo em relação às zonas com vitivinicultura, um zoneamento pedológico e climático mais detalhado ainda está por ser feito. Desse modo, o entendimento da aptidão natural das novas regiões ainda é um processo em construção.

As novas regiões encontram-se ainda em estruturação, com vários empreendimentos em fase de consolidação econômica. Por outro lado, cada região possui perfil próprio da matriz de produção. Por exemplo, na Campanha Gaúcha os empreendimentos vitivinícolas pertencem basicamente a proprietários locais, com sucesso na exploração agropecuária, para os quais a vitivinicultura é muitas vezes uma atividade complementar que visa agregar mais valor à produção global da propriedade. Já na Serra do Sudeste, a grande maioria dos empreendimentos pertence a empresas vitivinícolas da Serra Gaúcha, que viram na região a oportunidade de obter uvas de alta aptidão enológica em um local não distante das vinícolas matrizes, com maior facilidade de mecanização da produção vitícola. O perfil dos produtores da região dos Campos de Cima da Serra é mais próximo daquele observado para os produtores da Campanha Gaúcha. Nas regiões de altitude de Santa Catarina, os empreendimentos vitivinícolas pertencem predominantemente a empreendedores de outras cadeias produtivas (alguns dos quais não possuíam domicilio nas regiões produtoras), que investiram na vitivinicultura movidos pelo desejo de elaborar produtos de qualidade excepcional, convictos do alto potencial dos locais de produção escolhidos.

O segmento de vinhos finos da vitivinicultura brasileira apresenta alguns aspectos altamente positivos, como o aumento lento e gradual das zonas delimitadas com status de Indicação Geográfica, a consolidação de especificidades regionais, a produção sem amarras legais em demasia, o fato de as regiões serem complexas e diferenciadas em relação às condições naturais, gerando produtos de tipicidades e estilos diferentes e abrindo a possibilidade do desenvolvimento de novos produtos diferentes dos atualmente existentes. Ainda, o leque varietal atual não é nem muito restrito, nem muito amplo, fornecendo uma boa base para a diversidade e as especificidades regionais, sem tornar a produção demasiadamente complexa. Por fim, nota-se várias experimentações de variedades ainda não cultivadas no Brasil, bem como pesquisas visando otimizar o cultivos das variedades mais promissoras aos ambientes nos quais foram introduzidas.

Por outro lado, constata-se que os volumes totais produzidos anualmente são ainda pequenos e a internacionalização na produção (entendida como a presença de empresas, profissionais qualificados e investimentos estrangeiros no país) é significativamente menor que aquela verificada nos outros países do novo mundo vitivinícola.

As tendências do cenário econômico mundial não apontam para nova expansão ou novos investimentos de vulto a curto prazo. É razoável considerar que novos empreendimentos vitivinícolas no país serão focados na procura por locais cujas condições naturais sejam realmente excepcionais.

Celito Crivellaro Guerra
Pesquisador em enologia, Embrapa Uva e Vinho

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